Revista Tesseract
ISSN 1519-2415
Primeiro chat sobre multiculturalismo da
Revista Tesseract
Versão editada
Docente: Profa. Dra. Elisa Sayeg
Pergunta para os
alunos: O que é multiculturalismo?
Aluna 1: É um conceito novo pra mim mas poderia arriscar que compreende a fusão
cultural que vive-se em razão do encurtamento das distâncias no planeta, Uma
aproximação de síntese dialética.
(21:13:46) Docente: Estamos pensando em desafios trazidos para a democracia
pelos contatos entre culturas diferentes, especialmente quando convivem, num
mesmo país, culturas diversas. Nossa proposta é discutir alguns desafios
trazidos pelo multiculturalismo, para a noção de democracia, a partir de alguns
autores que têm escrito sobre o tema. Então não são todos os aspectos que vamos
abordar, mas apenas alguns. Mas é o suficiente para começar uma reflexão mais
qualificada.
(21:31:40) Docente: Vou falar um pouco sobre a bibliografia. Nossa proposta é
partir de alguns artigos de um único livro. O livro foi criado a partir de
algumas palestras do Centro Universitário para os Valores Humanos da
Universidade de Princeton (1990). O objetivo do Centro é: ensino, pesquisa e
debate público sobre os valores éticos que integram diversas disciplinas
acadêmicas tradicionais. O tema central dos debates é: Que tipos de comunidades
podem ser criadas de forma justa a partir da nossa diversidade humana.
Eles acreditam que um dos desafios apresentados pela pluralidade diz respeito à
defesa de princípios ou perspectivas morais. Quer dizer, eles se preocupam com
o relativismo.
Isso quer dizer o seguinte: se todas as culturas são igualmente válidas -
relativismo - então não existem valores preferenciais?
(21:41:35) Aluna 1 fala para Docente: É que não existindo valores preferenciais
- no campo da cultura- eles surgem no campo do poder e relativizar pode
significar tb não se importar, ignorar enquanto conteudos importantes para
construção de identidades, visão de mundo, a ética particulari
(21:42:36) Docente : Isso que vc falou é
verdade, Aluna 1, que o relativismo, ausencia de valores, pode dar lugar a
abuso do poder, cinismo ...
(21:44:01) Aluna 1 fala para Docente: Não saberia dizer se é um perigo mas
sabemos que democracia tem dado mais direitos a alguns, alguns são mais iguais
que outros, exatamente em função do poder econômico.
(21:44:29) Aluna 2 fala para Docente: Mas também
preserva a identidade de um grupo. O que se busca é a exata dimensão do que
realmente importa para o ser humano.
(21:44:49) Docente: Essa é uma contradição: a democracia se baseia na
igualdade.
(21:45:01) Aluno 3: ainda assim essa diferença é menor do que quando não
existia democracia representativa...
(21:45:10) Aluna 2 fala para Docente: E o que realmente importa extrapola o
relativismo. São valores de ser humano, não de culturas.
(21:45:49) Docente: Quer dizer, se na prática a democracia dá mais direitos a
alguns, isso é uma contradição dos princípios da democracia.
(21:46:33) Docente: Isso quer dizer que a democracia está errada? Os princípios
da igualdade estão errados?
(21:47:06) Aluno 3: os princípios não estão em contradição. A prática é que não
está de acordo com os princípios. Mas isso não é um problemão, por assim
dizer...
(21:48:32) Docente: como eu estava dizendo, o relativismo para alguns prejudica
a democracia, para outros ele permite que se garantam os direitos
de cada cultura diferente dentro de uma mesma democracia. Será?
(21:48:45) Aluna 1 fala para Docente: A democracia já nasceu restrita no q diz
respeito aos direitos de cidadão. Mulheres, escravos, estrangeiros não
participavam. Como hoje.
21:49:56) Docente fala para TODOS: A democracia nasceu restrita, mas ela se
ampliou. Não de graça, mas a partir de lutas.
(21:53:09) Docente fala para Aluno 3: Qual a sua posição em relação ao
"multiculturalismo"?
(21:55:03) Aluno 3 fala para Docente: Se entendi o conceito, acho que só é possível
com democracia e garantia de alguns direitos no âmbito pessoal.
(21:55:14) Docente: Ela se baseia em princípio de igualdade. Todos têm
direito aos bens fundamentais.
(21:55:43) Docente: Vou citar um pouco, permitam a demora ...
(21:56:48) Docente: "Uma das visões do
liberalismo (democracia) afirma que a nossa falta de identificação com
instituições que servem objetivos
públicos, a impessoalidade das instituições públicas, é o preço que os cidadãos
deveriam aceitar pagar para viver em uma sociedade que trata a todos como
iguais, independente de sua particular identidade étnica, religiosa, racial ou
sexual. É a neutralidade da esfera pública que protege nossa liberdade e
igualdade como cidadãos".
"Nessa visão, nossa liberdade ou igualdade refere-se
somente a nossas características comuns - nossas necessidades universais,
independentes da nossa identidade cultural particular, de "bens primários
como salário, saúde, educação, liberdade religiosa , liberdade de consciência,
de expressão, de imprensa, de livre associação, de processo justo, direito de
votar e de ser eleito para cargos públicos. Esses são interesses compartilhados
por quase todas as pessoas, independente de nossa raça ."
Quer dizer , é por essa perspectiva que, para o liberalismo, não existe
necessidade de reconhecer a especificidade cultural de grupos distintos (por
raça, etnia, religião, gênero). A democracia só existe para garantir os
direitos fundamentais.
Então, para essa visão do liberalismo, as instituições
públicas devem tratar a todos como se fossem neutros relativamente a raça,
etnia, religião e gênero.
Uma das críticas é: que esse "neutro" não existe, porque ele se
baseia numa visão idealizada de ser humano, com uma determinada raça e gênero.
(22:04:24) Aluna 1 para Docente: Impossível, na prática encontrar essa tal
neutralidade. Instituições são criações de pessoas que normalmente têm um
pensamento comum a respeito de determinado assunto. Ou então não é instituição.
no sentido sociológico do termo.
(22:04:30) Docente: Outra visão alternativa inclui entre os "bens
culturais" a vivência em um "ambiente cultural significativo e
seguro";
(22:05:26) Docente: Concordo, Aluna 1, Na prática, as instituições se baseiam
num ideal de ser humano que é homem, branco ...
(22:06:30) Docente : O que esse livro em que estou me baseando começa a dizer é
... eles tentam conciliar uma visão que preserva direitos culturais com uma
visão de democracia como igualdade.
Então uma visão é: está certo que as instituições devem preservar direitos
fundamentais. Mas devem incluir, entre os direitos, o direito a viver numa
cultura significativa, mesmo que minoritária.
(22:09:10) Docente : A palestra central do livro que estou comentando, Aluna 1,
foi proferida no referido centro por um filósofo chamado Charles Taylor,
canadense.
Estamos partindo desse livro porque ele explica de modo claro alguns conflitos
...
Ele procura identificar a origem histórica da demanda por reconhecimento das
culturas distintas.
(22:10:24) Aluna 1 para Docente: Vc deve estar me vendo como pessimista e
exageradamente crítica de tudo. É que estou procurando algo novo pra pensar o
mundo e poder intervir de forma diferente de: a esquerda, a direita, o centro,
etc. Poder ver nascer justiça social de algum lugar c
(22:10:40) Docente para Aluna 1: "O que está em jogo nas demandas feitas
por muitas pessoas de que as instituições públicas reconheçam suas identidades
particulares‘?
(22:11:06) Aluna 1 fala para Docente: cada dia
mais utópico (tão distante que inatingível) Precisamos de teorias novas não?
(22:11:11) Docente para Aluna 1 : Nao acho exageradamente crítica, é que são
questões difíceis mesmo ...
(22:12:05) Docente: Trata-se de uma necessidade psicológica de reconhecimento,
que não existiu sempre na história da humanidade, segundo esse filósofo.
(22:13:49) Docente: Ele considera o reconhecimento por outrem importante para a
identidade e o bem estar psicológico, mas não sempre assim, não foi sempre como
é hoje em dia.
(22:14:53) Docente: Ele diz que o reconhecimento: que é uma das forças motrizes
detrás de movimentos nacionalistas na política, bem como está presente em
diversas reivindicações de grupos minoritários ou "subalternos", em
algumas formas de feminismo e no que é hoje cham
(22:15:02) Aluna 1 fala para Docente: Como essas
necessidades foram identificadas e pq são assim hoje?
(22:15:13) Docente: Calma, vamos chegar lá.
(22:15:41) Docente: ele diz que a
necessidade de reconhecimento existe como peça importante no feminismo, no
multiculturalismo, e em movimentos nacionais.
(22:15:58) Docente: Sobre movimentos nacionais, no caso dele, ele está pensando
no Canadá. O Canadá tem uma parte anglófona e uma parte francófona.
(22:17:07) Docente : Existe um movimento do Quebec - francófono - para criar
leis especiais que protejam os direitos linguisticos dessa parte, contra a
invasão do poder economico maior da parte anglófona.
(22:17:55) Docente: Essas leis que protegem o Quebec podem ser consideradas
"leis especiais", ou seja, fogem das "leis gerais" que a
democracia garante a todos (bens fundamentais).
(22:18:28) Docente: Ou podem ser consideradas como salvaguardas necessárias
para a preservação dos bens fundamentais, que inclui o direito de cada um a sua
cultura, a viver num ambiente cultural significativo.
(22:19:35) Docente: Essa necessidade de
reconhecimento então ele vê que aproxima os problemas do Quebec, do feminismo,
das comunidades minoritárias, como os negros, ou religiões minoritárias ...
todos têm necessidade de reconhecimento.
(22:20:07) Docente: E é uma necessidade psicológica que surgiu historicamente
..
(22:20:40) Docente: Isso porque - segundo o estudo que ele faz - durante o
Absolutismo, e antes, a identidade das pessoas era dada simplesmente por sua
posição social.
(22:20:55) Docente: Era a hierarquia que determinava a identidade.
(22:21:44) Docente: Nessa época, não havia a noção de identidade, como hoje em
dia, mas de "honra".
(22:22:23) Docente: "Contra a noção de honra, temos a noção moderna de
dignidade, agora utilizada em um sentido universalista e igualitário, quando
falamos da "dignidade inerente a todos os seres humanos", ou a
dignidade dos cidadãos. A premissa subjacente é que todo mu
(22:23:16) Docente: Na sociedade hierárquica, alguns têm "honra", e
outros se contentam em fazer deferências.
(22:23:38) Docente: Na sociedade democrática, a idéia básica é que todos têm
dignidade.
(22:24:10) Docente: Existem ainda algumas circunstâncias em que há o mecanismo
da honra, como p. exemplo, se confere o prêmio Nobel.
(22:24:33) Docente: Se todo mundo ganhasse o prêmio Nobel, não haveria mais
honra em ganhá-lo.
(22:24:50) Docente: entao a honra preve distinçoes, privilégios. Mas hoje em
dia a honra acontece por um aspecto da pessoa, uma atividade que fez bem, está
ligada ao mérito.
(22:25:52) Docente: No Antigo Regime, estava ligada à classe social, só por ter
tal posicção social - ser nobre, ou do clero - tinha-se honra, independente do
comportamento ou das realizações.
(22:26:27) Docente : (Podemos dizer que
ainda existe uma atitude assim em pessoas que se julgam superiores por ser
homem, ou por ser branco ...).
(22:26:59) Docente: Mas com o colapso da sociedade hierárquica, a noção de
honra desaparece, ou fica enfraquecida, e surge a noção de dignidade.
(22:27:29) Docente : Todos são igualmente dignos. Mas de onde surge isso, antes
da Revolução Francesa?
(22:28:26) Docente : Ele identifica que vem da
noção, que foi expressa por Rosseau, de que, se seguirmos a voz da natureza
dentro de nós, estaremos em contato com o "ser humano bom", a
autêntica moralidade.
(22:28:49) Docente: Como todas as pessoas podiam escutar esse "bom"
dentro de si, então todos tinham em princípio dignidade.
(22:29:13) Docente: Então ele quer dizer que a noção de dignidade, e depois de
identidade, está ligada à de autenticidade.
(22:29:53) Docente: Herder foi um outro autor, do Romantismo, que articulou
essa sensibilidade nova. Ele dizia que cada um tem um jeito único de ser, e
somente seguindo esse jeito poderá ser feliz.
(22:30:55) Docente: É a idéia de "se encontrar", de encontrar o seu
jeito de ser feliz. Para essa visão do Romantismo, todas as pessoas têm que
encontrar esse jeito é o melhor para si e tem a ver com sua natureza interior.
(22:31:16) Docente: Se não
o fizer, perde o contato com seu "verdadeiro eu".
(22:31:44) Docente: Para Herder, não so os indivíduos, mas também os povos
tinham que buscar esse jeito próprio de ser feliz.
(22:32:11) Docente: Os alemães não deviam imitar os franceses ... hoje em dia,
os canadenses do Quebec não devem virar Ingleses ...
(22:33:12) Docente: Mas para Taylor, não basta somente eu descobrir,
isoladamente, qual o meu "verdadeiro eu", único, que pode ser
diferente de todos os demais,
(22:33:43) Docente : Isso porque a natureza humana é "dialógica", ela
se cria em relação de diálogo com outras pessoas, os "outros
significativos".
(22:34:24) Docente : "A descoberta de minha própria identidade não
significa que eu trabalho em isolamento, mas que negocio dialogicamente, em
diálogo parte externo e parte interno, com os outros".
(22:35:04) Docente: Na sociedade hierárquica, o reconhecimento também dependia
dos outros, mas era fixo, determinado pela posição social (nobreza, clero).
(22:35:57) Docente: Na sociedade democrática pós-romântica, a identidade
interiormente originada, pessoal, original, não obtém reconhecimento a priori.
(22:36:21) Docente: "Ela tem que obter reconhecimento na relação com os
outros, e a tentativa pode falhar."
(22:36:52) Docente: Então, hoje em dia, a identidade não depende somente da
posição social, mas de que os outros reconheçam a sua originalidade, a sua
autenticidade.
(22:37:09) Docente: A sua diferença, enfim. O não reconhecimento é sentido como
opressão.
(22:38:06) Docente: Esse é o correlato psicológico da sociedade democrática. E
essa necessidade de reconhecimento vale para a maioria dos movimentos sociais:
feminismo, movimento negro, movimento de minoriais étnicas-lingüísticas, de
homossexuais ....
(22:38:34) Docente: Se bem que se critica a necessidade de identidade e reconhecimento
nos Estados Unidos, é uma sensibilidade que hoje existe em toda parte.
(22:39:24) Docente : Com a globalização, existe a tendência de homogeneização.
Então, pra falar de outro autor, Manual Castells diz que hoje existe a tensão
entre a "rede" e o "self", o global e a identidade local.
(22:39:53) Aluna 1 fala para Docente: Não entendi o que vc
disse a respeito dos EUA.
(22:39:58) Docente : Enfim, Taylor argumenta bem como para a sensibilidade
contemporânea, o reconhecimento é uma necessidade fundamental.
(22:40:50) Docente: EUA: estava só lembrando que se critica muito, na mídia
atual, que os EUA têm uma obsessão com movimentos de identidade, afinal é forte
lá o movimento feminista, o movimento homossexual, o movimento negro ...
(22:41:22) Aluna 1 fala para Docente: Sim...
(22:41:26) Docente: Na mídia e mesmo na academia, criticam esses movimentos nos
EUA, dizendo que com isso perdem a noção de "uma única sociedade".
(22:42:32) Docente: Mas por outro lado, Taylor está dizendo que essa necessidade
de reconhecimento é geral, surgiu depois do fim do Antigo Regime, com o colapso
da sociedade hierárquica, e foi estimulado pelo Romantismo (estético,
filosófico).
(22:43:22) Docente: Que defende, enfim, que cada um tem um jeito único de ser
feliz, de se encontrar, mas pelo caráter dialógico do ser humano, a busca da
autenticidade deve ser reconhecida pelos outros, num processo dinâmico.
(22:44:23) Docente: Mesmo as teorias liberais tiveram influência dessas idéias,
não só a esquerda. A teoria liberal diz que não se pode interferir na busca de
cada um pelo seu jeito único, deve-se apenas garantir as condições
fundamentais, os bens básicos.
(22:45:10) Docente: Os bens básicos seriam a renda, saúde, educação, liberdade
de expressão, de votar e ser eleito, etc. e, para alguns, também o direito de
pertencer a um ambiente cultural seguro.
(22:45:48) Docente: De qualquer forma, mesmo que os liberais critiquem a busca
de reconhecimento dos movimentos sociais, também as idéias liberais tiveram uma
influência dessa busca de autenticidade.
(22:46:26) Docente: Este é o fim do capítulo 1 da palestra. Podemos continuar
na proxima aula.
(22:46:57) Docente: Podia fazer algumas observações adicionais.
(22:47:35) Docente: Por exemplo, Habermas escreverá um comentário à palestra de
Taylor. O nosso plano é discutir também essa resposta de Habermas.
(22:48:10) Docente: Habermas, por exemplo, argumenta que a proteção igual
perante a lei não é suficiente para constituir uma democracia constitucional.
(22:53:07) Docente: Eu estava dizendo que a palestra do Taylor teve vários
comentaristas, estava pensando em abordar três: Habermas, o filósofo da ação
comunicativa, K. Anthony Appiah, Professor de Afro-American Studies and
Philosophy em Harvard, e uma comentadora feminista. Cada um procura explicar o
que achou de importante e o que achou limitado na exposição de Taylor.
(22:54:27) Docente: Depois a idéia é comentar se há conflito entre o
multiculturalismo e o feminismo, há uma polêmica séria a respeito hoje em dia.
(22:54:41) Docente: Daí já é outra bibliografia.
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