Revista Tesseract

ISSN 1519-2415

Edição Especial 2004 

Primeiro chat sobre multiculturalismo da Revista Tesseract

Versão editada

Docente: Profa. Dra. Elisa Sayeg 

 

 

Pergunta para os alunos: O que é multiculturalismo?

Aluna 1: É um conceito novo pra mim mas poderia arriscar que compreende a fusão cultural que vive-se em razão do encurtamento das distâncias no planeta, Uma aproximação de síntese dialética.


(21:13:46) Docente: Estamos pensando em desafios trazidos para a democracia pelos contatos entre culturas diferentes, especialmente quando convivem, num mesmo país, culturas diversas. Nossa proposta é discutir alguns desafios trazidos pelo multiculturalismo, para a noção de democracia, a partir de alguns autores que têm escrito sobre o tema. Então não são todos os aspectos que vamos abordar, mas apenas alguns. Mas é o suficiente para começar uma reflexão mais qualificada.

(21:31:40) Docente: Vou falar um pouco sobre a bibliografia. Nossa proposta é partir de alguns artigos de um único livro. O livro foi criado a partir de algumas palestras do Centro Universitário para os Valores Humanos da Universidade de Princeton (1990). O objetivo do Centro é: ensino, pesquisa e debate público sobre os valores éticos que integram diversas disciplinas acadêmicas tradicionais. O tema central dos debates é: Que tipos de comunidades podem ser criadas de forma justa a partir da nossa diversidade humana.

Eles acreditam que um dos desafios apresentados pela pluralidade diz respeito à defesa de princípios ou perspectivas morais. Quer dizer, eles se preocupam com o relativismo.

Isso quer dizer o seguinte: se todas as culturas são igualmente válidas - relativismo - então não existem valores preferenciais?

(21:41:35) Aluna 1 fala para Docente: É que não existindo valores preferenciais - no campo da cultura- eles surgem no campo do poder e relativizar pode significar tb não se importar, ignorar enquanto conteudos importantes para construção de identidades, visão de mundo, a ética particulari

(21:42:36) Docente : Isso que vc falou é
verdade, Aluna 1, que o relativismo, ausencia de valores, pode dar lugar a abuso do poder, cinismo ...

(21:44:01) Aluna 1 fala para Docente: Não saberia dizer se é um perigo mas sabemos que democracia tem dado mais direitos a alguns, alguns são mais iguais que outros, exatamente em função do poder econômico.

(21:44:29) Aluna 2 fala para Docente: Mas também preserva a identidade de um grupo. O que se busca é a exata dimensão do que realmente importa para o ser humano.

(21:44:49) Docente: Essa é uma contradição: a democracia se baseia na igualdade.

(21:45:01) Aluno 3: ainda assim essa diferença é menor do que quando não existia democracia representativa...

(21:45:10) Aluna 2 fala para Docente: E o que realmente importa extrapola o relativismo. São valores de ser humano, não de culturas.

(21:45:49) Docente: Quer dizer, se na prática a democracia dá mais direitos a alguns, isso é uma contradição dos princípios da democracia.

(21:46:33) Docente: Isso quer dizer que a democracia está errada? Os princípios da igualdade estão errados?

(21:47:06) Aluno 3: os princípios não estão em contradição. A prática é que não está de acordo com os princípios. Mas isso não é um problemão, por assim dizer...

(21:48:32) Docente: como eu estava dizendo, o relativismo para alguns prejudica a democracia, para outros ele permite que se garantam os direitos
de cada cultura diferente dentro de uma mesma democracia. Será?

(21:48:45) Aluna 1 fala para Docente: A democracia já nasceu restrita no q diz respeito aos direitos de cidadão. Mulheres, escravos, estrangeiros não participavam. Como hoje.

21:49:56) Docente fala para TODOS: A democracia nasceu restrita, mas ela se ampliou. Não de graça, mas a partir de lutas.

(21:53:09) Docente fala para Aluno 3: Qual a sua posição em relação ao "multiculturalismo"?

(21:55:03) Aluno 3 fala para Docente: Se entendi o conceito, acho que só é possível com democracia e garantia de alguns direitos no âmbito pessoal.


(21:55:14) Docente: Ela se baseia em princípio de igualdade. Todos têm
direito aos bens fundamentais.

(21:55:43) Docente: Vou citar um pouco, permitam a demora ...

(21:56:48) Docente: "Uma das visões do liberalismo (democracia) afirma que a nossa falta de identificação com instituições que servem objetivos
públicos, a impessoalidade das instituições públicas, é o preço que os cidadãos deveriam aceitar pagar para viver em uma sociedade que trata a todos como iguais, independente de sua particular identidade étnica, religiosa, racial ou sexual. É a neutralidade da esfera pública que protege nossa liberdade e igualdade como cidadãos".

"Nessa visão, nossa liberdade ou igualdade refere-se
somente a nossas características comuns - nossas necessidades universais, independentes da nossa identidade cultural particular, de "bens primários
como salário, saúde, educação, liberdade religiosa , liberdade de consciência, de expressão, de imprensa, de livre associação, de processo justo, direito de votar e de ser eleito para cargos públicos. Esses são interesses compartilhados por quase todas as pessoas, independente de nossa raça ."

Quer dizer , é por essa perspectiva que, para o liberalismo, não existe necessidade de reconhecer a especificidade cultural de grupos distintos (por raça, etnia, religião, gênero). A democracia só existe para garantir os direitos fundamentais.

Então, para essa visão do liberalismo, as instituições
públicas devem tratar a todos como se fossem neutros relativamente a raça, etnia, religião e gênero.

Uma das críticas é: que esse "neutro" não existe, porque ele se baseia numa visão idealizada de ser humano, com uma determinada raça e gênero.

(22:04:24) Aluna 1 para Docente: Impossível, na prática encontrar essa tal neutralidade. Instituições são criações de pessoas que normalmente têm um pensamento comum a respeito de determinado assunto. Ou então não é instituição. no sentido sociológico do termo.

(22:04:30) Docente: Outra visão alternativa inclui entre os "bens culturais" a vivência em um "ambiente cultural significativo e seguro";

(22:05:26) Docente: Concordo, Aluna 1, Na prática, as instituições se baseiam num ideal de ser humano que é homem, branco ...

(22:06:30) Docente : O que esse livro em que estou me baseando começa a dizer é ... eles tentam conciliar uma visão que preserva direitos culturais com uma visão de democracia como igualdade.

Então uma visão é: está certo que as instituições devem preservar direitos fundamentais. Mas devem incluir, entre os direitos, o direito a viver numa cultura significativa, mesmo que minoritária.

(22:09:10) Docente : A palestra central do livro que estou comentando, Aluna 1, foi proferida no referido centro por um filósofo chamado Charles Taylor, canadense.

Estamos partindo desse livro porque ele explica de modo claro alguns conflitos ...

Ele procura identificar a origem histórica da demanda por reconhecimento das culturas distintas.

(22:10:24) Aluna 1 para Docente: Vc deve estar me vendo como pessimista e exageradamente crítica de tudo. É que estou procurando algo novo pra pensar o mundo e poder intervir de forma diferente de: a esquerda, a direita, o centro, etc. Poder ver nascer justiça social de algum lugar c

(22:10:40) Docente para Aluna 1: "O que está em jogo nas demandas feitas por muitas pessoas de que as instituições públicas reconheçam suas identidades particulares‘?

(22:11:06) Aluna 1 fala para Docente: cada dia mais utópico (tão distante que inatingível) Precisamos de teorias novas não?

(22:11:11) Docente para Aluna 1 : Nao acho exageradamente crítica, é que são questões difíceis mesmo ...

(22:12:05) Docente: Trata-se de uma necessidade psicológica de reconhecimento, que não existiu sempre na história da humanidade, segundo esse filósofo.

(22:13:49) Docente: Ele considera o reconhecimento por outrem importante para a identidade e o bem estar psicológico, mas não sempre assim, não foi sempre como é hoje em dia.

(22:14:53) Docente: Ele diz que o reconhecimento: que é uma das forças motrizes detrás de movimentos nacionalistas na política, bem como está presente em diversas reivindicações de grupos minoritários ou "subalternos", em algumas formas de feminismo e no que é hoje cham

(22:15:02) Aluna 1 fala para Docente: Como essas
necessidades foram identificadas e pq são assim hoje?

(22:15:13) Docente: Calma, vamos chegar lá.

(22:15:41) Docente: ele diz que a
necessidade de reconhecimento existe como peça importante no feminismo, no multiculturalismo, e em movimentos nacionais.

(22:15:58) Docente: Sobre movimentos nacionais, no caso dele, ele está pensando no Canadá. O Canadá tem uma parte anglófona e uma parte francófona.

(22:17:07) Docente : Existe um movimento do Quebec - francófono - para criar leis especiais que protejam os direitos linguisticos dessa parte, contra a invasão do poder economico maior da parte anglófona.

(22:17:55) Docente: Essas leis que protegem o Quebec podem ser consideradas "leis especiais", ou seja, fogem das "leis gerais" que a democracia garante a todos (bens fundamentais).

(22:18:28) Docente: Ou podem ser consideradas como salvaguardas necessárias para a preservação dos bens fundamentais, que inclui o direito de cada um a sua cultura, a viver num ambiente cultural significativo.

(22:19:35) Docente: Essa necessidade de reconhecimento então ele vê que aproxima os problemas do Quebec, do feminismo, das comunidades minoritárias, como os negros, ou religiões minoritárias ... todos têm necessidade de reconhecimento.

(22:20:07) Docente: E é uma necessidade psicológica que surgiu historicamente ..

(22:20:40) Docente: Isso porque - segundo o estudo que ele faz - durante o Absolutismo, e antes, a identidade das pessoas era dada simplesmente por sua posição social.

(22:20:55) Docente: Era a hierarquia que determinava a identidade.

(22:21:44) Docente: Nessa época, não havia a noção de identidade, como hoje em dia, mas de "honra".

(22:22:23) Docente: "Contra a noção de honra, temos a noção moderna de dignidade, agora utilizada em um sentido universalista e igualitário, quando falamos da "dignidade inerente a todos os seres humanos", ou a dignidade dos cidadãos. A premissa subjacente é que todo mu

(22:23:16) Docente: Na sociedade hierárquica, alguns têm "honra", e outros se contentam em fazer deferências.

(22:23:38) Docente: Na sociedade democrática, a idéia básica é que todos têm dignidade.

(22:24:10) Docente: Existem ainda algumas circunstâncias em que há o mecanismo da honra, como p. exemplo, se confere o prêmio Nobel.

(22:24:33) Docente: Se todo mundo ganhasse o prêmio Nobel, não haveria mais honra em ganhá-lo.

(22:24:50) Docente: entao a honra preve distinçoes, privilégios. Mas hoje em dia a honra acontece por um aspecto da pessoa, uma atividade que fez bem, está ligada ao mérito.

(22:25:52) Docente: No Antigo Regime, estava ligada à classe social, só por ter tal posicção social - ser nobre, ou do clero - tinha-se honra, independente do comportamento ou das realizações.

(22:26:27) Docente : (Podemos dizer que
ainda existe uma atitude assim em pessoas que se julgam superiores por ser homem, ou por ser branco ...).

(22:26:59) Docente: Mas com o colapso da sociedade hierárquica, a noção de honra desaparece, ou fica enfraquecida, e surge a noção de dignidade.

(22:27:29) Docente : Todos são igualmente dignos. Mas de onde surge isso, antes da Revolução Francesa?

(22:28:26) Docente : Ele identifica que vem da noção, que foi expressa por Rosseau, de que, se seguirmos a voz da natureza dentro de nós, estaremos em contato com o "ser humano bom", a autêntica moralidade.

(22:28:49) Docente: Como todas as pessoas podiam escutar esse "bom" dentro de si, então todos tinham em princípio dignidade.

(22:29:13) Docente: Então ele quer dizer que a noção de dignidade, e depois de identidade, está ligada à de autenticidade.

(22:29:53) Docente: Herder foi um outro autor, do Romantismo, que articulou essa sensibilidade nova. Ele dizia que cada um tem um jeito único de ser, e somente seguindo esse jeito poderá ser feliz.

(22:30:55) Docente: É a idéia de "se encontrar", de encontrar o seu jeito de ser feliz. Para essa visão do Romantismo, todas as pessoas têm que encontrar esse jeito é o melhor para si e tem a ver com sua natureza interior.

(22:31:16) Docente: Se não o fizer, perde o contato com seu "verdadeiro eu".

(22:31:44) Docente: Para Herder, não so os indivíduos, mas também os povos tinham que buscar esse jeito próprio de ser feliz.

(22:32:11) Docente: Os alemães não deviam imitar os franceses ... hoje em dia, os canadenses do Quebec não devem virar Ingleses ...

(22:33:12) Docente: Mas para Taylor, não basta somente eu descobrir, isoladamente, qual o meu "verdadeiro eu", único, que pode ser diferente de todos os demais,

(22:33:43) Docente : Isso porque a natureza humana é "dialógica", ela se cria em relação de diálogo com outras pessoas, os "outros significativos".

(22:34:24) Docente : "A descoberta de minha própria identidade não significa que eu trabalho em isolamento, mas que negocio dialogicamente, em diálogo parte externo e parte interno, com os outros".

(22:35:04) Docente: Na sociedade hierárquica, o reconhecimento também dependia dos outros, mas era fixo, determinado pela posição social (nobreza, clero).

(22:35:57) Docente: Na sociedade democrática pós-romântica, a identidade interiormente originada, pessoal, original, não obtém reconhecimento a priori.

(22:36:21) Docente: "Ela tem que obter reconhecimento na relação com os outros, e a tentativa pode falhar."

(22:36:52) Docente: Então, hoje em dia, a identidade não depende somente da posição social, mas de que os outros reconheçam a sua originalidade, a sua autenticidade.

(22:37:09) Docente: A sua diferença, enfim. O não reconhecimento é sentido como opressão.

(22:38:06) Docente: Esse é o correlato psicológico da sociedade democrática. E essa necessidade de reconhecimento vale para a maioria dos movimentos sociais: feminismo, movimento negro, movimento de minoriais étnicas-lingüísticas, de homossexuais ....

(22:38:34) Docente: Se bem que se critica a necessidade de identidade e reconhecimento nos Estados Unidos, é uma sensibilidade que hoje existe em toda parte.

(22:39:24) Docente : Com a globalização, existe a tendência de homogeneização. Então, pra falar de outro autor, Manual Castells diz que hoje existe a tensão entre a "rede" e o "self", o global e a identidade local.

(22:39:53) Aluna 1 fala para Docente: Não entendi o que vc
disse a respeito dos EUA.

(22:39:58) Docente : Enfim, Taylor argumenta bem como para a sensibilidade contemporânea, o reconhecimento é uma necessidade fundamental.

(22:40:50) Docente: EUA: estava só lembrando que se critica muito, na mídia atual, que os EUA têm uma obsessão com movimentos de identidade, afinal é forte lá o movimento feminista, o movimento homossexual, o movimento negro ...

(22:41:22) Aluna 1 fala para Docente: Sim...

(22:41:26) Docente: Na mídia e mesmo na academia, criticam esses movimentos nos EUA, dizendo que com isso perdem a noção de "uma única sociedade".

(22:42:32) Docente: Mas por outro lado, Taylor está dizendo que essa necessidade de reconhecimento é geral, surgiu depois do fim do Antigo Regime, com o colapso da sociedade hierárquica, e foi estimulado pelo Romantismo (estético, filosófico).

(22:43:22) Docente: Que defende, enfim, que cada um tem um jeito único de ser feliz, de se encontrar, mas pelo caráter dialógico do ser humano, a busca da autenticidade deve ser reconhecida pelos outros, num processo dinâmico.

(22:44:23) Docente: Mesmo as teorias liberais tiveram influência dessas idéias, não só a esquerda. A teoria liberal diz que não se pode interferir na busca de cada um pelo seu jeito único, deve-se apenas garantir as condições fundamentais, os bens básicos.

(22:45:10) Docente: Os bens básicos seriam a renda, saúde, educação, liberdade de expressão, de votar e ser eleito, etc. e, para alguns, também o direito de pertencer a um ambiente cultural seguro.

(22:45:48) Docente: De qualquer forma, mesmo que os liberais critiquem a busca de reconhecimento dos movimentos sociais, também as idéias liberais tiveram uma influência dessa busca de autenticidade.

(22:46:26) Docente: Este é o fim do capítulo 1 da palestra. Podemos continuar na proxima aula.

(22:46:57) Docente: Podia fazer algumas observações adicionais.

(22:47:35) Docente: Por exemplo, Habermas escreverá um comentário à palestra de Taylor. O nosso plano é discutir também essa resposta de Habermas.

(22:48:10) Docente: Habermas, por exemplo, argumenta que a proteção igual perante a lei não é suficiente para constituir uma democracia constitucional.

(22:53:07) Docente: Eu estava dizendo que a palestra do Taylor teve vários comentaristas, estava pensando em abordar três: Habermas, o filósofo da ação comunicativa, K. Anthony Appiah, Professor de Afro-American Studies and Philosophy em Harvard, e uma comentadora feminista. Cada um procura explicar o que achou de importante e o que achou limitado na exposição de Taylor.

(22:54:27) Docente: Depois a idéia é comentar se há conflito entre o multiculturalismo e o feminismo, há uma polêmica séria a respeito hoje em dia.

(22:54:41) Docente: Daí já é outra bibliografia.



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