Revista Tesseract
1a. Edição 2007
ISSN 1519-2415
O MITO DE NARCISO E ECO E
ESPIRITUALIDADE
VERA LÚCIA SOARES CHVATAL
Em uma tranqüila tarde de domingo, mexendo em alguns papéis, encontrei uma poesia de Fernando Pessoa escrita em uma folha de caderno. Um amigo a escreveu há tempos atrás, quando estudávamos teologia juntos. Nessa poesia, Pessoa expressa sua angústia dizendo: “Tudo o que faço ou medito, fica sempre na metade! Querendo, quero o infinito. Fazendo, nada é verdade…” Quanta sabedoria nesses versos. Quem já não se sentiu desiludido, angustiado, fragmentado, entre seus desejos, seus sonhos e a dura realidade? “Por que te curvas, ó minha alma, gemendo dentro de mim?” (Sl 42,6) canta o salmista. Nossa alma anseia pelo infinito… E no livro da Sabedoria o hagiógrafo acrescenta: “nossa vida é a passagem de uma sombra.” (Sab 2,5) Nossa existência se caracteriza pela insatisfação, pela nostalgia, pela solidão, pelo desejo de completude e de perfeição. Somos seres finitos que almejam o infinito! E almejando a perfeição, queremos o Todo!
Cecília Meireles diz: “Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.”
A poesia é uma linguagem universal. Ela consegue colocar em palavras os sentimentos humanos, tais como eles surgem. Em que pese a língua em que foi transcrita, a poesia fala ao coração humano, provocando ressonâncias que vai ecoando em profundidade pelos meandros da alma. A linguagem poética tem a capacidade de atingir de imediato as imagens da alma. Por isso, as palavras do poeta ressoam nos corações e mentes como um eco que vai reverberando longamente, conduzindo a imaginação por caminhos nunca antes pisados. Como os mitos antigos que, através de uma prosa poética, rica e imaginativa, falam do existir humano.
O mito é uma intuição compreensiva da realidade, uma forma espontânea do ser humano situar-se no mundo. Ao entrar em contato com o mundo, o ser humano – antes de ser uma “cabeça que pensa”, um ser reflexivo, um ser racional – desenvolveu a intuição, a imaginação, a fantasia. Por isso, a primeira fala humana sobre o mundo não é interpretativa, mas está presa ao desejo de dominá-lo, espantando a insegurança, os temores e a angústia diante do desconhecido e da morte. Nesse sentido, a primeira função do mito não é explicar a realidade concreta, mas acomodar o ser humano frente a uma realidade assustadora. Dessa forma, o mito é a primeira leitura do mundo e temos que entendê-lo como o ponto de partida para a compreensão do ser. Hoje sabemos que mito e razão se complementam mutuamente. Da mesma forma que intuição e reflexão fazem parte da dimensão humana.
O Mito de Narciso e Eco1
O mito grego de Narciso e Eco nos conta a trágica história de uma paixão! E toda paixão é trágica, como bem disse o sábio rei Salomão para a sua amada Sulamita: “Cruel como o abismo é a paixão, suas chamas são chamas de fogo, uma faísca de Iahweh!” (Cânt 8,6)
Pelo mito ficamos sabendo que Narciso era filho do rio Cefiso e da ninfa Liríope, nome que lembra uma flor, o Lírio. Pois bem, dessa união do rio com a flor do Lírio nasceu o jovem Narciso, considerado o mais belo dos mortais. De uma beleza nunca vista, Narciso tornou-se a paixão de todas as jovens da Grécia. Até mesmo as ninfas, divindades ligadas aos elementos da natureza e conhecidas por sua formosura, estavam irremediavelmente presas à beleza de Narciso. E, dentre estas, Eco uma jovem ninfa conhecida por sua tagarelice.
Zeus, o imortal deus do Olimpo gostava de dar suas escapadas amorosas pelo mundo dos mortais, atrás de belas jovens. Casado com a ciumenta Hera que o vigiava constantemente, pediu à ninfa Eco que distraísse sua esposa com sua conversa, enquanto ele descia à terra para mais um de seus encontros amorosos. Hera, que não era boba e conhecia o marido que tinha, percebeu a artimanha e castigou a ninfa, condenando-a a não mais falar: repetiria tão-somente os últimos sons das palavras que ouvisse.
Mas, era verão e a jovem ninfa estava apaixonada por Narciso, que partira com alguns companheiros para uma caçada nos bosques. Sem se deixar ver, Eco seguia o amado, ansiando por ele. Acariciando o amado com seu olhar, Eco perscrutava-o intensamente, como que querendo sorvê-lo aos turbilhões, tentando captar o segredo daquele sentimento, daquela paixão.
Alheio aos sentimentos despertados em Eco e tendo-se afastado dos amigos, Narciso começou a gritar por eles ouvindo em resposta o som de sua própria voz a ecoar pelas montanhas afora… A apaixonada ninfa, castigada pela Deusa Hera, não podia falar! Eco ouvia a voz de seu amado, mas não podia lhe falar e, sem a possibilidade do encontro, entristecida, sentindo-se rejeitada por Narciso, a jovem deixou de se alimentar, definhando até transformar-se em uma rocha. Capaz apenas de repetir os derradeiros sons do que ouvia. As demais ninfas, condoídas com a sorte de Eco e irritadas com o que consideravam uma insensibilidade por parte de Narciso, pediram vingança a Nêmesis. E a deusa da justiça distributiva o condenou a amar um amor impossível.
Numa tarde de verão Narciso, sedento, aproximou-se da límpida fonte de Téspias para mitigar a sede. Debruçando-se sobre o lago que formava um espelho imaculado, ele viu-se refletido nas águas e apaixonou-se pela própria imagem. Não conseguindo mais se afastar da própria imagem, morreu de inanição, tal qual a ninfa Eco. Em seu lugar foi encontrada uma delicada flor amarela, com o centro circundado de pétalas brancas. Era o Narciso.
Os mitos podem ser entendidos como paradigmas do desenvolvimento humano. Narciso e Eco estão em relação dialética de opostos complementares. Nos faz pensar nas relações humanas, na relação conjugal. Onde um busca o outro, tentando se encontrar e se resolver através do outro. Geralmente, encontram-se mas não se resolvem. Quando não, se separam! Então, fica a tragédia dos encontros-desencontros-reencontros.
E aí, novamente, é o poeta quem vai dar a última palavra. Mário Quintana diz:
“Não desças os degraus do sonho, para não despertares os monstros. Não subas aos sótãos, onde os deuses, por trás das máscaras, ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica! O mistério está é na tua vida! E é um mundo louco este nosso mundo…”
Espiritualidade e Religiosidade
A beleza – e a poesia é uma das mais belas expressões da alma humana – é uma experiência espiritual. E a experiência espiritual caracteriza-se pela sensação de que a mente e o corpo estão vivos numa unidade. E que essa unidade está ligada a toda a teia da vida. Fazemos parte de uma ordem maior, uma maravilhosa sinfonia da vida. O que temos em comum com todos os seres viventes é o espírito - o sopro da vida. É o que nos alimenta e o que nos mantém vivos. Não estamos no universo, pertencemos ao universo, somos poeira de estrelas. E essa percepção pode dar um profundo sentido à vida.
No Dicionário Aurélio encontramos a palavra espiritualidade referindo-se à qualidade ou caráter de espiritual, o qual, por sua vez, é relativo ao espírito (por oposição à matéria), à religião ou próprio dela. Entretanto, superando a visão platônica e dicotômica, o teólogo Leonardo Boff2 afirma que a espiritualidade tem a ver com a experiência de contato com o transcendente – este compreendido como uma dimensão, não percebida de imediato, da realidade concreta, material e cotidiana da existência, ou seja algo presente, mas nem sempre revelado, na experiência histórica do ser humano - e à arte de tornar o viver orientado e impregnado por esta vivência.
Religião, por sua vez, segundo Boff refere-se à organização institucional e doutrinária de determinada forma de vivência religiosa, cujos ensinamentos, doutrinas, rituais, orações, éticas (comportamentos adequados), edifícios artísticos (templos e monumentos) têm como objetivo conduzir os fiéis a uma vivência espiritual nos moldes daquela tradição religiosa. Enquanto que o termo religiosidade tem a ver com a tendência ou a disposição da pessoa para com a vivência religiosa, para com o caráter místico, espiritual da vida.
A espiritualidade é uma dimensão humana. O filósofo Schopenhauser, em seu ensaio sobre os fundamentos da moralidade, se indagava: “Como é possível que o sofrimento que nem é meu e nem me interessa, me afete de imediato como se fosse meu e com força tal a ponto de impelir-me à ação?”3
Qualidade única do ser humano, na sociedade contemporânea acelerada em seus processos histórico-sociais, altamente competitiva e discriminatória por centrar-se no ter e não no ser, a espiritualidade é uma dimensão necessária e esquecida. A cultura dominante, via de regra, ainda vê o ser humano de forma dicotômica, dualista, cindindo-o em matéria e corpo por um lado, e espírito e alma por outro lado. Dessa forma perdeu-se a unidade sagrada da pessoa, fazendo da espiritualidade uma tarefa, sem dúvida importante, mas fragmentada e desvinculada da totalidade do ser humano.
Atualmente se busca viver a espiritualidade através de meditações, locais específicos, momentos de silêncio, como se fosse algo a ser adquirido, possuído, e não algo constitutivo do ser humano, algo que o diferencia dos demais seres vivos. O que não é errado, porém é uma visão reducionista, na medida em que não percebe a espiritualidade como um modo de ser da pessoa, e não somente com alguns momentos de sua vida. A espiritualidade tem a ver com o ser da pessoa, é uma qualidade intrínseca e inerente à sua humanidade, e não com o ter - conceito valorizado pela atual sociedade moderna e consumista.
Segundo Leonardo Boff2, constituindo-se numa totalidade complexa, onde uma sinfonia de múltiplas dimensões coexistem e se interpenetram, o ser humano possui três dimensões fundamentais, que ocorrem juntas e articuladas entre si: 1) a exterioridade, que compreende ao nosso corpo, entendido como um ser humano inteiro com inteligência, sentimentos, etc., e diz respeito ao conjunto das nossas relações com o universo, a natureza, a sociedade, os outros, e com a nossa própria realidade cotidiana; 2) a interioridade, que se refere à mente e é constituída por tudo que diz respeito ao nosso universo interior, voltado para dentro, de onde irrompeu a consciência e a espiritualidade; e 3) a profundidade, refere-se ao espírito que possui a capacidade de captar o que está além das aparências, apreendendo o outro lado das coisas em sua profundidade.
A espiritualidade, assim compreendida,
fortalece os vínculos de identificação entre os seres humanos através de seu
valor maior que é a compaixão e que ajuda a desenvolver esse sentimento
Entretanto, espiritualidade não é busca de conexão apenas com sentimentos considerados nobres e bondosos. Muitas vezes, se associa a idéia de pessoa espiritualizada como aquela que busca se revestir de discursos e sentimentos corretos e positivos. O esforço para alcançar a bondade pura resulta numa máscara ou uma auto-ilusão de bondade. O ser humano é habitado em seu inconsciente por sentimentos recalcados e tem atitudes que contrariam o que conscientemente deseja ou pensa ser.
Nesse sentido, o desenvolvimento da espiritualidade consiste no cultivo da arte do contato sistemático com o eu profundo, ou seja, uma busca contínua pelo auto-conhecimento e pelo respeito a todas as formas de vida. Com isto, procura-se transformar a dimensão de transcendência, que faz parte da estrutura da vida, num elemento permanente de orientação da consciência e da ação, num projeto pessoal. É trabalhar para que a sociedade, a cultura, a educação, a saúde e tudo o mais reservem espaços de contemplação, de interiorização e de integração consciente com a transcendência. É revelar e tornar evidente, para si e para a sociedade, esta dimensão do existir, consistindo num desenvolvimento gradativo que exige um saber complexo de manejo da subjetividade5.
Narciso, Eco e Espiritualidade
Fazendo um contraponto com o mito de Narciso e Eco, podemos pensar os personagens do mito grego Narciso e Eco como seres incompletos, “não sujeitos”, paradigmas da falta de sabedoria em manejar a subjetividade inerente ao ser humano. A complexidade da evolução humana nos leva a transitar por dois mundos complementares, o mundo objetivo (externo, da realidade concreta) e o mundo subjetivo (interno, da fantasia, da imaginação, mas nem por isso menos real!).
Para nos comunicarmos com o mundo objetivo temos os cinco sentidos: visão, olfato, audição, linguagem e tato. Para o mundo subjetivo temos os sentidos espirituais (desejar, amar, imaginar, etc.), em suma, a sensibilidade humana e o caráter humano dos sentidos, que só podem vingar através da existência de seu objeto, através da natureza humanizada, espiritualizada.
A subjetividade do indivíduo não é construída através de um ato solitário de auto reflexão. É o resultado de um processo que se dá em uma complexa rede de interações. E a interação social é, ao menos potencialmente, uma interação dialógica, comunicativa. Não reagimos simplesmente aos estímulos do meio ambiente. Graças à linguagem atribuímos um sentido às nossas ações, somos capazes de comunicar nossas percepções, desejos, intenções, expectativas e pensamentos. É através do diálogo, da interlocução, que nos tornamos sujeitos de nossa história.
No mito vemos a impossibilidade do diálogo entre o jovem Narciso e a ninfa Eco. Impedidos de se encontrar, não se comunicam, não se conhecem, não descobrem o amor que transcende o próprio ser abrindo-o para o outro, o diferente, o Todo. Narciso não vê nada além de si mesmo. Descobre sua imagem no lago e se basta. Fecha-se em si próprio. Eco, ao contrário de Narciso não se vê, projeta-se no outro, vendo sua imagem nele refletida e também se fecha. Ambos definham e morrem.
Até a bem pouco tempo atrás o homem gabava-se de sua objetividade, deixando a subjetividade para a mulher. Assim rotulados ele se via como o ser objetivo, coerente, prático, sábio… ligado à razão. E ela o ser subjetivo, descontrolado, incoerente, infantil… ligada à emoção. Nada mais falso do que essa visão unilateral e preconceituosa. Nem um era o dono da razão, nem a outra da emoção. Nem o homem pode fechar-se em si mesmo, ancorado na sua pseudo objetividade e sabedoria, nem a mulher pode alienar-se, projetando no outro a idealização de si mesma. Homens e mulheres são seres complementares, onde razão e emoção coexistem possibilitando um desenvolvimento mais íntegro da personalidade.
Paradigmas de seres que se fecharam em si mesmos, o mito de Narciso e Eco nos alerta para a necessidade de nos abrirmos para o outro/outra, para o mundo, para a natureza, para o Universo, para o Todo através de uma espiritualidade criativa e interativa com a vida em sua totalidade. E procurar desenvolver a autonomia, a compaixão e a sabedoria para uma vida rica e abundante. É, talvez, a única forma de sobreviver num mundo cada vez mais sufocado pela violência, pela ambição, pelo materialismo, pelo ter… Descobrir que somos sujeitos de nossa história e. assim, assumir a responsabilidade perante nós mesmos, perante a vida, o mundo, o Cosmo!
BIBLIOGRAFIA
1. Junito de Souza Brandão. Mitologia Grega. Vol. II. Petrópolis:Vozes, 1987.
2. Leonardo Boff. Princípio de compaixão e cuidado - com a colaboração de Werner Mueller, Petrópolis: Vozes, 2001
3. On the Foundations of
Morality”, Sämtliche Werke, Arthur
Schopenhauer (Verlag der Cotta’schen Buchhandlung,
1895-1898, p.254-293.
4. Summa theologiae II-II, q.30
a.I, ad 2, I.c., p.231s.
5. Rose Marie Muraro, Leonardo Boff. Feminino e Masculino. Uma nova consciência das diferenças. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
* Vera Lúcia Soares Chvatal é bacharel em Teologia pelo Instituto Teológico de São Paulo, psicóloga e mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e doutorada em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas. Reside e trabalha em Campinas. e-mail: verapsico@gmail.com