Revista Tesseract
ISSN 1519-2415
LÍNGUA PORTUGUESA E
IDENTIDADE NACIONAL EM JOSÉ LUANDINO VIEIRA
Deize Pereira Bebiano *
aluna do curso de graduação em Letras da FFLCH-USP
É através da literatura
oral africana que tradicionalmente ocorria a transmissão de conhecimentos de
uma geração a outra. Por muito tempo, essa forma de expressão africana foi
considerada de menor valor, mas aos poucos foi obtido o reconhecimento em
veículos culturais de maior expressão. Os poetas com origem na literatura oral
tinham como preocupação central a situação de opressão do povo sob os
colonizadores, e o papel da mulher na sociedade em transformação. Em Angola,
antes da independência, nas décadas de 1950 e 1960, a procura da identidade
nacional foi realizada por meio da poesia, instrumento para a busca da
autenticidade emocional vinculada à luta nacionalista. Temas da poesia nessa
época eram a evocação da infância, das memórias ancestrais, o sentimento de
desenraizamento, a valorização da solidariedade. Nessa época surgiram poetas da
importância de Agostinho Neto, que após a independência (11 de novembro de
1975) viria a ser presidente do país. Outros poetas de destaque nesse período e
durante a luta de independência foram Viriato da Cruz e António Jacinto .
Uma contradição inerente
às literaturas africanas contemporâneas é a manutenção das línguas coloniais,
ao mesmo tempo em que se busca a autenticidade africana e a construção da
identidade nacional em cada país, cujos limites geográficos, determinados pelos
colonizadores, muitas vezes não seguiam as divisões de grupos culturais e
étnicos do continente, e muitas vezes dividiam um grupo original em dois
países, ou então, agrupavam num único país nações tradicionalmente rivais.
Escritores de expressão
internacional, como o nigeriano Chinua Achebe, admitem que a língua dos
colonizadores acabou por se tornar a língua nacional, uma vez que os africanos
das novas gerações já nasceram no interior dessas línguas (na Nigéria, trata-se
do inglês). No caso de Angola, a língua oficial é o português, mas não podemos nos
esquecer de que Angola abriga cerca de onze grupos lingüísticos principais, que
podem ser subdivididos em diversos dialetos (cerca de noventa). As línguas
principais, faladas por cerca de 70% dos africanos de Angola, são: o umbundu,
falado pelo grupo Ovimbundu (parte central do país); o kikongo, falado pelos
Bakongo, ao norte, e o chokwe-Lunda e o kioko-Lunda, ambos ao nordeste. Há
ainda o kimbundu, falado pelos Mbundos, Mbakas, Ndongos, e Mbondos, grupos
aparentados, que ocupam o litoral, de Luanda e arredores até o rio Cuanza.
(Hamilton, ..., 154).
Dada essa variedade
lingüística original, o português, imposto pelos colonizadores, acabou por se
tornar uma espécie de língua franca, que facilitava a comunicação entre
os diversos grupos. Em contato com as línguas nativas, o português também
sofreu modificações, dando origem a falares crioulos, conhecidos como pequeno
português, ou popularmente, como pretoguês.
José Luandino Vieira -
escritor que se tornou conhecido com a revista Cultura, de 1957, e que participou
com sua literatura da luta pela independência e também como membro do MPLA,
tendo ficado preso de 1961 a 1972 por atividades anticolonialistas - em seu
livro de contos de 1964, Luuanda, escrito na prisão, retrata o
bilingüismo da capital Luanda, onde o português, língua oficial, convive com o
kimbundu, a língua do dia a dia. Em contos e novelas, Luandino Vieira retrata
contradições sociolingüísticas, expressas em conflitos de gerações, etnias, e
ideologias.
O livro Luuanda recebeu
o prêmio literário angolano Mota Veiga, em 1964, e o Grande Prêmio de
Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, de 1965. Por ser Luandino
Vieira prisioneiro político em Angola, as autoridades de Lisboa tentaram
retirar o prêmio, lançando suspeitas sobre a excelência literária do livro, e
talvez assustados com as palavras e frases em kimbundu, inseridas nas estórias.
Além disso, em 1972, uma edição de Luuanda pelas editora edições 70,
teve apreensão decretada em Portugal pelo governo de Marcelo Caetano. Em
recurso jurídico, a editora solicitou a avaliação literária de eminentes
críticos e estudiosos de literatura africana, no que foi atendida por Jorge de
Sena, escritor, crítico e professor livre-docente em literatura portuguesa no
Brasil e na Universidade da Califórnia, e Ferreira de Castro, intelectual
português. Tratava-se de apontar que as qualidades literárias da obra superavam
em muito qualquer leitura política sectária, e esses dois críticos foram os
únicos a ter coragem de manifestar sua solidariedade, naquele tempo de opressão
também em Portugal.
A identidade nacional
nos contos de Luuanda
A obra literária de José Luandino
Vieira - especialmente contos nos quais o espaço literário está centrado nos
musseques, bairros pobres e, portanto, vítimas da discriminação e opressão
econômica - contribuiu para a integração cultural e lingüística de Angola. Seus
contos têm por função ajudar a reconstruir a cultura de um povo que, por muito
tempo, foi desenraizada e fragmentada.
José Luandino, embora de
origem portuguesa, soube introduzir em seus textos a língua falada dos
musseques e o kimbundu, apresentando-os não de forma exótica, mas integrada ao
contexto maior da estória.
Os textos são
literariamente muito bem elaborados, e contam com um motivo figurador central.
No conto "O Ladrão e o Papagaio", esse motivo central é o
"cajueiro". Ao redor da imagem da árvore - símbolo universal de
unidade, regeneração, auto-realização e crescimento orgânico, íntegro -
desenvolve-se a ação discursiva no conto. Não se trata de qualquer árvore, mas
uma árvore de importância nacional, o cajueiro, símbolo da MPLA (Movimento pela
Libertação de Angola), que indica a resistência, ainda que no meio da
destruição.
Esse ideal de
resistência está bem explicitado no seguinte trecho do conto: "Fiquem
malucos, chamem o trator, ou arranjem as catana, cortem, serrem, partam, tirem
todos os filhos grossos do tronco-pai e depois saiam embora, satisfeitos: pau
de cajus acabou, descobriram o princípio dele. Mas chove a chuva, vem o calor,
e um dia de manhã, quando vocês passam no caminho do cajueiro, uns verdes
pequenos e envergonhados estão a espreitar em todos os lados, em cima do bocado
grosso, do tronco-pai". (Luuanda, 1982: 53).
Ao discorrer sobre o fio
da vida, o personagem Xico Futa completa o seu ensinamento: " (...) não
adianta ficar vaidosos com a mania que partiram o fio da vida, descobriram o
princípio do cajueiro ...". E mais adiante conclui: "... o fio da
vida não foi partido".
Podemos perceber no
texto também a preocupação do autor quanto aos verdadeiros sentimentos de apego
aos costumes e à tradição, quando se recomenda que se deve começar pelas coisas
da terra, "costuma se começar, para ser mais fácil, na raiz dos paus, na
raiz das coisas, na raiz dos casos, das conversas" (Luuanda, p.
54).
Segundo alguns
intérpretes, dessa forma Luandino Vieira sugere como princípio para a
construção da identidade nacional, a formação da personalidade na vivência
familiar e no grupo étnico, bem como pela educação.
Já no conto
"Estória da Galinha e do Ovo", a trama se desenvolve em torno da
disputa por um ovo, que simboliza a identidade do grupo (os habitantes pobres
de um musseque). Dois modos de existência do grupo são possíveis, o conflito
interno, ou a união para se defender da opressão econômica, racial ou policial.
No início dessa estória,
duas vizinhas - mulheres negras e pobres do musseque - disputam pela
propriedade de um ovo. Nga Zefa tem uma criação de galinhas, mas uma das
galinhas insiste em ir ciscar no quintal de Nga Bina, que tem o marido preso,
está grávida e não tem criação de galinhas. Nga Bina dá milho à galinha de Nga
Zefa, até que a galinha põe um ovo no seu quintal. As vizinhas brigam, uma
reivindicando o direito à propriedade da galinha e do ovo, a outra,
reivindicando o direito ao ovo já que a galinha comeu do seu milho. Outras
mulheres vizinhas aparecem para escutar e opinar, com a mediação da mais velha
do grupo, a Vavó Bebeca. Diz Nga Bina:
- Sukuama ! O que é
eu preciso dizer mais, vavó? Toda a gente já ouviu mesmo a verdade. Galinha é
de Zefa, não lhe quero. Mas então a galinha dela vem no meu quintal, come meu
milho, debica minhas mandioqueiras, dorme na minha sombra, depois põe o ovo aí
e o ovo é dela? Sukuá ! O ovo foi o meu milho que lhe fez, pópilas !
Faz-se uma roda de
vizinhas - mulheres negras - para arbitrar o caso, e são chamados vários
passantes para dar sua opinião. Os passantes - um aspirante a seminarista,
representando o poder clerical; um ex-notário e beberrão, simbolizando a
burocracia e os maridos que não ajudam as mulheres; um homem branco; um
proprietário que aluga as habitações para os pobres, simbolizando a exploração
econômica - todos procuram tirar proveito da desunião do grupo, tentando obter
a propriedade do ovo para si. Finalmente, aparece a instância de opressão maior
na forma de uma polícia que discrimina os negros pobres do musseque. O sargento
da tropa diz que não são permitidas reuniões, e tenta se apropriar, não do ovo,
mas da galinha.
A chegada da polícia
representa uma ameaça mais concreta vinda de fora, e devemos entender essa
opressão no contexto dos problemas políticos de Angola da época em que o conto
se desenrola, antes da independência. Os demais representantes do poder, que vieram
arbitrar no caso do ovo, de uma certa forma ou de outra ainda pertenciam ao
grupo, perifericamente. Mas a polícia, neste caso, representa a opressão
política de antes da independência (o marido preso de Nga Bina era
provavelmente um preso político). Essa ameaça concreta e externa à dinâmica do
grupo é suficiente para o grupo tomar novamente consciência de si, e recuperar
a união perdida. Uma artimanha de garotos salva a galinha das mãos
aproveitadoras do sargento, e a tensão interna ao grupo se dissolve. O sargento
vai embora, e as vizinhas que brigavam se reconciliam. A mulher mais velha do
grupo, a Vavó Bebeca, oferece o ovo a Nga Bina, e Nga Zefa, feliz por ter
recuperado a galinha, depois de uma breve reticência constrangida, de bom grado
concorda em dar o ovo à mulher grávida.
- Posso, Zefa?
Envergonhada ainda, a
mãe de Beto não queria soltar o sorriso que rebentava na cara dela. Para
disfarçar, começou dizer só:
- É sim, vavó! É a
gravidez. Essas fomes, eu sei .. E depois o mona na barriga reclama !
A imagem da galinha
voando em liberdade em direção ao sol, a presença de Nga Bina com sua imensa
barriga segurando o ovo, e a própria barriga parecendo um imenso ovo, são
símbolos ligados ao princípio da vida, que está direcionado para o futuro com
promessas da nova sociedade que irá surgir. E a nova sociedade, para Luandino
Vieira, tem potencial para nascer a partir da união do povo simples e pobre dos
musseques, das mulheres negras, e da língua misturada falada verdadeiramente
pelo povo.
Referências
Hamilton, Russel G.
"Preto no Branco, Branco no Preto - Contradições Lingüísticas na
Novelística Angolana"
Hamilton, Russel G.
(1984) Literatura africana, literatura necessária. Lisboa, Edições 70.
Luandino Vieira, José
(1982) Luuanda. São Paulo, Ática.
Santilli, Maria
Aparecida (1985) Africanidade. São Paulo, Ática.