Revista
Tesseract
http://cyborg.sites.uol.com.br/
Trabalho apresentado no Simpósio de Cibercultura:
Cartografias do Ciberespaço. SP: SENAC, 2004. Sayeg,
M.E.M.
Uma exposição oral de uma versão preliminar deste artigo foi
realizada no Simpósio de Cibercultura, organizado por Lúcia Leão no SENAC em
2004.
Nesta comunicação, apresentei alguns aspectos de uma linha de pesquisa que visa compreender o hipertexto em uma tradição das enciclopédias. Tem como objetivo abordar o hipertexto como modelo ou metáfora não tanto da mente ou da sociedade, o que também é, mas da enciclopédia. Como um tipo de enciclopédia, é também um discurso sobre a natureza do conhecimento e da mente humana. Trata-se, como já se pode prever, de uma determinada concepção sobre a natureza das enciclopédias.
Segundo Oliveira (1999: 178), os modelos em ciência cognitiva, ao proporem uma concepção naturalizada da mente humana, apresentam criptonormatividade. Uma vez que a característica fundamental da mente humana é a plasticidade, culturalmente realizada, uma proposição tal como “a mente humana é um computador” equivale à proposição “a mente humana deve ser um computador”. Quando se apresenta uma versão naturalizante da mente, essa normatividade fica escamoteada, embora presente, efetiva. É a criptonormatividade. Modelos de Inteligência Artificial, quando considerados modelos realistas de mente humana, podem veicular uma concepção de ser humano, modelo este que pode ser criptonormativo (a mente desencarnada, o pós-humano, etc). Para Hayles (1999: 4), um sujeito pós-humano não é necessariamente alguém que modificou seu corpo com a tecnologia, mas alguém cujo auto-entendimento é influenciado por modelos da subjetividade originados da ciência cognitiva e da inteligência artificial.
O
hipertexto também pode exercer o mesmo papel, isto é, ser um modelo
criptonormativo da mente humana, por isso sua importância na constituição das
novas subjetividades, o que também é feito através de valores veiculados por
estruturas que parecem, à primeira vista, simplesmente formais, e portanto
isentas de valorações. “Inteligência artificial como
um modelo da mente” faz parte da constituição de conceitos de pós-humano, e de
novas maneiras de concebermos a subjetividade. De uma forma talvez menos óbvia,
também o hipertexto participa dessas novas concepções de humano.
Em Pierre Lévy o hipertexto torna-se metáfora exacerbada da mente humana e da sociedade, como metáfora das novas subjetividades (e potencial ausência de sujeito, algo pensa em nós, e esse algo é hipertextual):
"Quem pensa? Uma imensa rede loucamente complicada, que pensa de forma múltipla, cada nó da qual é por sua vez um entrelace indiscernível de partes heterogêneas, e assim por diante em uma descida fractal sem fim. Os atores dessa rede não param de traduzir, de repetir, de cortar, de flexionar em todos os sentidos aquilo que recebem dos outros. Pequenas chamas evanescentes de subjetividade unitária correm na rede como fogos-fátuos no matagal das multiplicidades. Subjetividades transpessoais de grupos. Subjetividades infrapessoais do gosto, do olhar, da carícia. É claro, a pessoa pensa, mas é porque uma megarrede cosmopolita pensa dentro dela, cidades e neurônios, escola pública e neurotransmissores, sistemas de signos e reflexos. Quando deixamos de manter a consciência individual no centro, descobrimos uma nova paisagem cognitiva, mais complexa, mais rica" (Lévy, 1983: 173).
De uma maneira menos entusiasmada, podemos definir o hipertexto como um tipo de organização não linear do texto, desenvolvida como forma de possibilitar formas controladas de acesso ao texto. A acepção estrita do termo refere-se à forma eletrônica de organizar o acesso não linear, com um programa (software) específico no computador que permite a ligação entre uma parte do texto com qualquer outra parte do mesmo ou de outros textos armazenados na memória do computador, o que fornece acesso rápido às informações neles contidas, através de ligações associativas. As unidades de informação ligadas são chamadas de “nós”. Hipermídia é a extensão do conceito para um sistema computadorizado equivalente que permite ligações múltiplas entre imagem, som e vídeo, além de texto escrito, propriamente. Pode-se, no entanto, utilizar o termo hipertexto na acepção inclusiva, contemplando a hipermídia.
Sustento a idéia de que o hipertexto, por mais simplesmente que seja definido, ainda assim exerce esse efeito que apontei na constituição das novas subjetividades. No mínimo, as extensões da memória, os artefatos que fazem a mediação cognitiva, as técnicas da memória – incluindo a escrita – exercem efeitos na cognição individual. Em um exemplo simples, quem tem o hábito de ler pensa com uma determinada organização e desenvolve certos conceitos, de forma diferente dos iletrados, como bem demonstrou o neurologista Luria.
Minha tese adicional é que os dicionários e enciclopédias – e o hipertexto aqui é entendido como enciclopédia – constituem discursos filosóficos, ou ao menos em uma certa tradição constituem discursos filosóficos, se não é sempre que o fazem (mas bem pode ser que sempre o façam).
Eventualmente, ao menos, dicionários e enciclopédias constituem discursos sobre a natureza do conhecimento, da mente, do ser humano, da moral, do cosmos.
Aqui tentarei ilustrar alguns aspectos dessa característica dos dicionários e enciclopédias.
Inicialmente, a leitura de um trabalho do filósofo italiano Diego Marconi chamou-me a atenção para a natureza filosófica de dicionários e enciclopédias como modelos. Em Dizionari e Enciclopedia, Marconi (1983) relembra filosofias que reduzem o dicionário à enciclopédia e as que reduzem a enciclopédia ao dicionário. O que à primeira vista refere-se apenas à semântica de palavras tem muitas conseqüências teóricas (por exemplo, crenças teóricas sobre o que é verdadeiro, como é possível o conhecimento, etc).
Em uma primeira abordagem, observamos que existem duas
formas principais de organização do acesso ao texto em uma enciclopédia: técnico
e temático. Aparentemente a organização temática é a que melhor se presta a um
ponto de vista filosófico, mas não é necessariamente assim. A organização
alfabética na Encyclopédie não a impede de, nos verbetes, apresentar um
discurso filosófico. Mas a estrutura de uma a “árvore dos conhecimentos” é uma
organização filosófica que está presente, também, na estrutura da
Encyclopédie, bem como em Bacon, Descartes, etc. Lembremos de algumas estruturações
temáticas:
1. História Natural, de Plínio, o Velho. Enciclopédia estruturada a partir dos seguintes tópicos: estrelas e planetas; geografia da Terra; seres humanos, animais, plantas e minerais.
2. Enciclopédia de Martianus Capella: estruturada a partir das sete artes liberais: gramática, retórica, dialética, aritmética, geometria, astronomia e música.
3. Enciclopédia de Vincente de Beauvois: utilizou, além de outros esquemas tradicionais, os sete dias da criação do mundo segundo o Velho Testamento (Bolter, 1991: 90).
Tal organização baseava-se em esquemas culturalmente válidos, conhecidos pela maioria dos leitores (cultos).
Mas houve tentativas de sistematizar. Lúlio (Ramón Lull, Raymond Lull) – sobre o qual falaremos mais, adiante - criou um sistema combinatório lógico-enciclopédico baseado em 9 (ou 10) princípios considerados atributos divinos, presentes na estrutura do mundo.
Francis Bacon tentou sistematizar as categorias organizativas do conhecimento enciclopédico, em The advancement of learning [O progresso do conhecimento], com um sistema baseado em três faculdades mentais, consideradas básicas: memória, imaginação e razão. A memória remetia a temas de história e escrita; a imaginação, a assuntos de arte; e a razão remetia à filosofia e à ciência natural.
E a Encyclopédie de Diderot e D’Alembert acrescentou, à ordem alfabética, um prefácio com uma “árvore do conhecimento” baseada nos “primeiros princípios”, de Bacon. Os artigos na Encyclopédie continham referência que os localizava na árvore, ainda que isso não fosse muito útil para organizar a leitura (Bolter, 1991: 92).
Uma forma de considerar o hipertexto como
constituinte de novas subjetividades é considerá-lo como uma memória externa,
uma prótese cognitiva.
Mas o interessante, em uma consideração desse tipo, é lembrar que desde a Antigüidade já se falava em um tipo de prótese cognitiva, que era a “memória artificial”, estudada por Frances Yates em A Arte da Memória (1966). A memória artificial era uma técnica pela qual o orador podia expandir sua capacidade cognitiva, inicialmente apenas através da imaginação. No entanto, a memória artificial era comparada a uma escrita. O sujeito deveria imaginar um edifício por ele bem conhecido, dividir esse edifício em espaços regulares e iluminados, e nesses espaços, imaginando, devia colocar os itens que desejava lembrar. Se quisesse lembrar fatos, devia colocar uma imagem evocativa. Percorrendo, na imaginação, os lugares de forma ordenada, era possível recordar com precisão o que se desejasse. Quem inicialmente discorreu sobre essa técnica foi Cícero, mas outros se seguiram. Na comparação com a escrita, o edifício imaginado era comparado com a cera, e as imagens, com as letras. (Outros já escreveram sobre como o aprendizado da escrita modifica formas de organização conceitual, como a organização da fala por “parágrafos”, ordenações, etc. A criação da técnica da memória parece ter sido possível a partir da escrita).
A
memória artificial foi posteriormente chamada de “arte da memória”, e conheceu
desenvolvimentos surpreendentes. Muitos tratados foram escritos que exploraram
os aspectos cognitivos da arte da memória, ou seja, detalharam a técnica que
devia ser utilizada para auxiliar oradores, juristas,
professores, teólogos, etc. Mas o mais interessante é uma tradição que
unia a “arte da memória” a uma busca pela “suma” do conhecimento, ou seja, uma
síntese enciclopédica de todo conhecimento humano.
Na Idade Média, Alberto Magno e Tomás de Aquino buscaram conciliar a tradição especulativa sobre a memória, iniciada com De memoria et reminiscentia, de Aristóteles, que pode ser entendido como um tratado de psicologia cognitiva, com a técnica da memorização, iniciada com Cícero. Ao realizar essa tentativa de conciliação, esses pensadores procuraram se afastar da arte da memória envolvida com o ocultismo, chamada de ars notoria ou ars summa (a memória entendida como chave da realidade universal) (Rossi, p. 52). Na Renascença, houve um florescimento justamente da ars notoria.
Na Renascença, as imagens colocadas nos lugares da memória (no edifício) eram símbolos. O pensamento renascentista tendia a incorporar as idéias em formas sensíveis, e concebia a realidade como algo que se vai revelando através de sinais, lembra-nos Paolo Rossi em seu estudo A chave universal. Por exemplo, continua, com essa influência, no seu livro Ciência Nova, de 1725, Giambattista Vico – que era professor de retórica - incluiu uma complexa figura logo na primeira página, que devia ajudar o leitor a “conceber a idéia desta obra antes de lê-la, e gravá-la mais facilmente na memória” (Apud Rossi, p. 81).
O nome mais conhecido da arte da memória, concebida como chave da realidade universal, é o do catalão Ramón Lull (Raymond Lull, Lúlio). Resumirei a seguir, baseando-me em Eco (2001) e Yates (1966), o que é a arte da memória de Lúlio, e destacarei algumas características que poderão ser relevantes para uma análise de enciclopédias em geral, e do hipertexto em particular.
A Arte
da Memória, de Lúlio (c.
1232-1316)
Lúlio era um catalão de Maiorca, que escreveu cerca de 280 obras, e viveu em um ambiente em que convergiam as culturas islâmica, hebraica e cristã. Ele desenvolveu a Ars magna (arte da memória) como forma de expor conhecimentos universais, com o fim de converter os não cristãos. A arte da memória é um sistema combinatório. Uma combinação é uma disposição de determinados elementos, por exemplo, tomadas as letras A, B, C e D, uma combinação dois a dois apresenta as formas em que as letras podem aparecer juntas, não importando a ordem (AB é o mesmo que BA).
Lúlio utiliza as letras de B até K, que devem ser combinadas duas a duas, não importando a ordem. As letras referem-se a princípios, ou dignidades, ou universais, ou atributos divinos, que são concebidas como elementos realmente existentes no universo: B (beleza), C (magnitude, grandeza), D (eternidade), E (poder), F (sabedoria), G (vontade), H (virtude), I (verdade), K (glória).
Por exemplo, pode-se formar o par EG. E pode ser sujeito ou predicado, G pode ser sujeito ou predicado. E significa “poder” e G significa “vontade”. EG traduz-se como: O poder é desejável ou então como A vontade é poderosa. A partir daí, podem ser aplicadas perguntas, de forma a auxiliar a retórica, como pro exemplo: Por que o poder é desejável? Que tipo de poder é desejável/ Por que a vontade é poderosa? Que espécie de vontade é poderosa?
A arte de Lúlio não é somente uma lógica, mas uma metafísica. Não está interessada apenas nas combinações, mas na estrutura do mundo. As coisas do mundo apresentam sinais que remetem à divindade.
Ela não funciona somente como auxílio à memória na oratória (aspecto técnico das artes da memória), mas também serve de chave da realidade, ela segue uma lógica substancial. O que se entende por lógica substancial, aqui, é o fato de que a estrutura do mundo (concebida teologicamente) apresenta restrições às combinações possíveis. Como comparação, na lógica formal pode-se chegar à conclusão de que “os cães são vegetais” se isso for o resultado de um silogismo válido. Na lógica de Lúlio isso não seria possível, por ser substancialmente errado. Conforme lembra Eco, em Lúlio, só são possíveis as combinações que estejam de acordo com a realidade substancial expressa na Corrente do Ser. Em sua obra sobre as Árvores da Ciência, ou Árvores do Conhecimento, ele expõe essa concepção cosmológica-teológica do Ser (as raízes das Árvores equivalem aos princípios na Ars magna).
Como chave universal, a Arte deveria permitir, a seus praticantes, o acesso a um tipo superior de conhecimento, juntamente com um progresso moral.
É importante frisar, então, que a arte de Lúlio não é investigativa, não produz novos conhecimentos, apenas mostra a realidade revelada, conforme entendida na Corrente do Ser.
Descartes criticou a lógica dos escolásticos por não ser produtiva, não conduzir a novos conhecimentos. Da mesma forma, no Discurso do Método, critica Lúlio (segunda parte, parágrafo 21 do livro).
Aspectos das enciclopédias e outras memórias artificiais
Pela exposição histórica acima realizada, podemos destacar os seguintes aspectos presentes nas enciclopédias e outras memórias artificiais:
· um aspecto cognitivo das artes da memória, que pode ser dividido em aplicado (técnico) e especulativo (psicologia cognitiva, modelos para a cognição, etc.)
· um aspecto de valores, valorativo
· um aspecto de chave da realidade
De uma forma ou de outra, parece-me que esses aspectos estão presentes, com maior ou menor ênfase, em todo tipo de enciclopédia.
Podem ser, portanto, encontrados também na tecnologia do hipertexto, uma configuração contemporânea de nossa memória externa.
Lúlio e o mundo fechado, Descartes e
a mathesis universalis
Chamo a atenção para a seguinte distinção entre Lúlio e Descartes. A lógica enciclopédica e substancial da arte de Lúlio não é produtiva, apenas expõe o conhecimento revelado. Esse tipo de organização do conhecimento é compatível com a compreensão cosmológica de sua época, tão bem descrita pelo estudo de Koyré (1979). Trata-se da compreensão do universo como mundo fechado. O universo é finito, e seus espaços são qualitativamente diferenciados. A Terra ocupa o lugar central (esquema ptolomaico), mas ao mesmo tempo o mais baixo e o mais imperfeito, pois é o lugar da corrupção. Os espaços próximos ao Sol, e aos céus superiores, são mais perfeitos, e seus habitantes são seres mais perfeitos. É interessante ver o paralelismo entre um espaço compreendido como qualitativamente diferente, e uma ênfase em um tipo de conhecimento que é também qualitativamente apresentado, ou seja: a ênfase não é na apresentação técnica, que deixaria ao leitor estabelecer livremente as relações relevantes, mas na veiculação de valores e de uma compreensão prévia do universo.
Lembra-nos Koyré que com Descartes – com a inauguração da filosofia moderna – ocorre uma mudança tanto na concepção de conhecimento, de lógica, quanto de espaço cosmológico. Quanto ao conhecimento, o objetivo é descobrir um método produtivo, que seja aplicável a todo tipo de objeto, indistintamente, e possa produzir novos conhecimentos. Trata-se da mathesis universalis, que corresponde à unificação do conhecimento, com base na matematização do mundo. Da mesma forma, há unificação e uniformização do universo; não existem mais espaços qualitativamente diferentes, todos estão submetidos à matematização e são equivalentes. O espaço confunde-se com a matéria (a res extensa – não existe espaço sem matéria, e vice-versa). O mundo não é fechado, isto é, não é limitado, pois a res extensa pode existir indefinidamente (Descartes resiste a utilizar o termo “infinito” para o universo, mas o sentido é o de infinitude).
“É fácil deduzir que a matéria do céu não é diferente daquela da Terra; e que de maneira geral, mesmo que haja uma infinidade de mundos, é impossível que não sejam construídos de uma mesma matéria; e, portanto, que não podem ser muitos, mas somente um, pois entendemos claramente que esta matéria de que se compõe toda a natureza, sendo esta uma substância extensa, já deve ocupar completamente todos os espaços imaginários em que deveriam estar esses outros mundos; e não encontramos em nós a idéia de nenhuma outra matéria”. (Segunda carta de Descartes a Henry Moore, platonista de Cambridge e amigo de Newton).
Pode-se considerar a uniformização do espaço pela matematização como uma forma de limitá-lo internamente, já que não se admite mais um invólucro que lhe estabeleça fronteira e separação interno/externo. É um espaço indeterminado, mas não é disforme, não é sem estrutura, não é privado de coesão intrínseca.
Paralelos
|
|
|
|
|
|
Técnicas modernas
Bolter (1991) afirma que quando o acesso a textos é difícil (seja porque há demasiados textos impressos, seja por falta deles) aumenta o recurso a enciclopédias e manuais. Trata-se de uma forma de fornecer súmulas do conhecimento, com ou sem a pretensão de unidade que tinha Descartes.
Diferentemente das tradições medievais e renascentistas, a moderna enciclopédia deixa o leitor realizar as relações, e investe em técnicas para ajudar a encontrar a informação desejada (o que o hipertexto amplia). Mas segundo Bolter (l991) o ideal de ser uma síntese do conhecimento – um ideal filosófico - mantém-se. A Encyclopédie francesa tinha tanto uma forma moderna (um compêndio de informações técnicas) quanto antiga (ainda visava propagar valores, no caso a filosofia Iluminista).
Será que atingimos, hoje, o ideal da técnica, e somos neutros para valores?
O hipertexto apresenta uma síntese do conhecimento humano? Tem um ideal filosófico embutido na sua estrutura/forma?
Não vou abordar aqui os aspectos ideológicos que podem estar embutidos em verbetes ou unidades informacionais. Outros já o fizeram (por exemplo, Krieger, 1995).
Os três aspectos característicos das artes da memória – cognitivo, valorativo e de chave da realidade – estão presentes no hipertexto. Cognitivo: o hipertexto como uma técnica de acesso, e também como um possível modelo da mente ou da memória. Valorativo: o hipertexto como uma forma preferencial de organização do pensamento, da memória, da subjetividade. Chave da realidade: o hipertexto representa adequadamente o universo do conhecimento, a sociedade, o universo.
Existem alguns aspectos técnicos e cognitivos do hipertexto que podem embutir valores e uma concepção de conhecimento (epistemologia). Apresento algumas proposições, sujeitas a polêmica.
1. O hipertexto é associativo e não produtivo
Hipertexto parece que retoma a uma concepção de criar
grades para os conteúdos do conhecimento (como era com Lúlio), não visa criar
novos conhecimentos (como era em Descartes).
Como privilegia a coordenação, e negligencia a
subordinação, pode ser que dificulte certas formas de raciocínio.
2. O hipertexto é uma
enciclopédia
Se, como afirma Jay Bolter, as enciclopédias mantém um ideal de síntese do conhecimento, o hipertexto parece no entanto abdicar dessa síntese, uma vez que pontencialmente está sempre aberto para a expansão, a partir da contribuição de múltiplos autores.
3. O hipertexto
refere-se a um “mundo fechado”
Edwards chama a atenção para a digitalização do mundo poder remeter a uma concepção de “mundo fechado”, fácil de ser instrumentalizado.
Por outro lado, o hipertexto parece remeter para um “espaço da escrita” (writing space) aberto, em expansão, ampliável indefinidamente, potencialmente infinito. Não prevê um espaço conceitual fechado, como o livro (Bolter, 2001), em que espera-se unidade de conteúdo ou de assunto, ou coerência de uma voz, que é a “persona” que narra ou apresenta o texto, conduz o leitor.
Podemos suspeitar que, para um referencial psicanalítico, é complicado ter uma representação da mente ou da memória que não respeita limites, e em que a diferenciação entre externo e interno é colocada em questão.
4. O hipertexto
homogeneiza o espaço conceitual
Nele, toda informação se equivale.
Conjuga potencial infinidade de conteúdos (fenomenologicamente), com unidade formal da estrutura
5. O hipertexto
valoriza o perspectivismo
Os contextos são intercambiáveis, fluidos. Toda unidade de informação pode ser aproximada a partir de diferentes contextos, remeter a diferentes contextos, em que adquire conotações e valorações diferentes, mas ao mesmo tempo permanece a dificuldade de realizar avaliação qualitativa (como se disse, ao menos formalmente, toda informação se equivale).
6. O hipertexto apresenta uma forma de conceber o espaço (conceitual) pela aparente ausência de determinação material.
Mas na verdade, existe uma estrutura do mundo que aparece, mesmo que não intencionalmente, que conduz e limita as ligações hipertextuais.
7. O hipertexto é um modelo da mente
Pela análise da criptonormatividade, se supõe-se que a
memória, ou a semântica, ou a mente humana tem estrutura hipertextual
(prevalentemente associativa), então quer dizer uma afirmação normativa: a mente
humana DEVE ser um hipertexto.
Devemos lembrar da plasticidade da mente humana. Se
atualmente funcionamos de maneira hipertextual, isso não é uma característica
natural e necessária da mente ou da memória ou da subjetividade, é
cultural.
8. O hipertexto é um discurso filosófico
Aparentemente, o hipertexto é uma tecnologia que implementa
uma concepção filosófica que prevê a eclipse do sujeito (o fim do autor) e a
descentralização do conhecimento (a descentralização também converge com a
ausência de um sujeito). São idéias que se formaram na história da filosofia, e
o hipertexto parece contribuir como uma metáfora ou apresentação dinâmica desses
conceitos filosóficos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOLTER, J. D. Writing space: the computer, hypertext, and the history of
writing. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, Publishers, 1991.
CASSIRER, E. El problema del conocimiento em la filosofia y em la ciencia modernas. México: Fundo de Cultura Econômica, 1993.
DESCARTES, R. Discurso do método. São Paulo, Martins Fontes, 1999.
ECO, U. A busca da língua perfeita. Bauru, SP: Edusc, 2001.
EDWARDS, P. N. The closed world: computers and
the politics of discourse in cold war America. Cambridge, Massachusetts: The MIT
Press, 1996.
HAYLES, K. N. How we became posthuman.
Chicago, The University of Chicago Press, 1999.
KOYRÉ, A. Do mundo fechado ao universo infinito. RJ: Forense Universitária/SP: Edusp,1979.
KRIEGER, M. G. (1995) “Discurso lexicográfico”. In: Do inteligível ao sensível. Ana Claudia de Oliveira e Eric Landowski, eds. São Paulo, Educ, 1995.
LÉVY, P. As tecnologias da inteligência. RJ: Editora 34, 1993.
MARCONI, D. Dizionari e Enciclopedie. Seconda
Edizione Riveduta e Accresciuta. Torino: G. Giappichelli, 1983.
OLIVEIRA, M. B. Da ciência cognitiva à dialética. São Paulo: Discurso, 1999.
ROSSI, P. A chave universal. Bauru, SP: Edusc, 2004.
SAYEG, M. E. M. Lexicografia e cognição. São Paulo: Faculdade de Educação da USP, 2000. Tese de doutorado.
YATES, F. A. The Art of Memory. Chicago,
Chicago University Press, 1966.