Revista Tesseract

ISSN 1519-2415

www.tesseract.psc.br

Edição 5 - julho 2001

 

Interação no Cyberespaço: Real ou Virtual?

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Maria Elisa Marchini Sayeg

psicóloga, doutora em Educação pela USP

palestra apresentada integralmente no I PsicoInfo - Seminário Nacional de Psicologia e Informática

Conselho Federal de Psicologia

Centro de Convenções Rebouças, 1998

disponível em vídeo

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Resumo

Como introdução à análise da interação online, este artigo irá primeiro discorrer a respeito de como as práticas comunicacionais influenciam a maneira como entendemos ou vivenciamos nossa subjetividade. Faz-se uma comparação entre as práticas comunicacionais associadas à cultura letrada tradicional, e aquelas pertencentes ao período atual, que está sofrendo os efeitos da Revolução da Tecnologia da Informação. Como exemplo, comparam-se os diários manuscritos do século XVIII com a prática atual de escrever diários online. Ao final do capítulo, são tecidas algumas considerações sobre aspectos de realidade e de ficção nas interações virtuais.

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Para tentar entender as qualidades ou características da interação, precisamos primeiramente entender alguns tipos de sentimentos ("vivências da subjetividade") que estão associados com as novas modalidades de comunicação mediadas pelo computador . Enfatizo que existem diversas modalidades. Logo adiante, irei falar sobre cada um dos conceitos apresentados no título deste artigo: interação, cyberespaço, real, virtual. Mas, para iniciar, vamos voltar nossa atenção para alguns aspectos da subjetividade associada às práticas comunicativas mediadas pelo computador. Para situar o tipo de mudança que estamos vivenciando, vamos voltar um pouco nossa atenção para os sentimentos associados à cultura letrada tradicional.

As formas de comunicação e interação possibilitadas pelas novas tecnologias inserem-se no seio da cultura letrada, e a modificam. Myron C. Tuman, no livro Literacy in the Computer Age, faz uma pergunta crucial: como estudar o impacto das novas tecnologias na cultura letrada, quando aquilo que entendemos por cultura letrada é condicionado pela tecnologia existente, muitas vezes de formas não totalmente conscientes? (Tuman, 1992, p. 2). Em linhas gerais, Tuman responde que, para entender o impacto do computador, devemos olhar menos para a própria tecnologia, e mais para as práticas existentes no seu uso, inclusive a leitura e a escrita. O computador não somente estende essas práticas, mas as transforma. Devemos verificar o que as pessoas fazem, como suas atividades se transformam.

Lembremos, para começar, que a escrita é uma tecnologia, que teve grande impacto nas formas de organização social, bem como na capacidade que conferiu às pessoas para organizar o pensamento, inclusive o pensamento a respeito dos sentimentos. Como diz Walter Ong, "mais do que qualquer outra invenção, a escrita transformou a consciência humana" (1982, p. 78, apud Tuman). Tuman afirma, mais especificamente, que com a difusão da cultura letrada com a criação da impressão, com a distribuição de textos impressos, a escrita teve um papel chave na formação da cultura moderna, ao permitir a expressão da experiência individual - e, conseqüentemente, de múltiplas experiências individuais. Ao que eu acrescento: multiplicidade essa que portanto não é nova, mas será exacerbada na comunicação mediada pelo computador, como veremos adiante.

Tuman mostra corretamente que a introdução de uma nova tecnologia não afeta imediatamente as práticas sociais existentes. Assim, a invenção da imprensa não mudou imediatamente os hábitos sociais de leitura. Por exemplo, como também foi lembrado por Bolter (1991, p. 3) a imprensa era usada para criar textos com aparência de manuscritos, com fontes (tipos de letras) que imitassem o manuscrito, e com a distribuição das palavras na página de forma típica dos manuscritos, sem explorar as novas possibilidades oferecidas. A leitura permanecia sendo um evento eminentemente oral e público, em geral na forma de leituras da Bíblia. O ponto central defendido por Tuman é que não foi a criação da tecnologia do texto impresso o que mais tarde transformou a experiência de ler e escrever, mas a organização da sociedade surgida com a experiência da industrialização e urbanização.

Alguns autores já estudaram a ligação entre o surgimento do romance e a industrialização e urbanização. (O clássico é The Rise of the Novel, de Ian Watt). Foi, de acordo com Tuman, uma recém criada classe média que se tornou apaixonadamente atraída pela intimidade do detalhe, pela privacidade compartilhada dos romances, como os de Samuel Richardson na Inglaterra (autor de Clarissa e Pamela) ou os romances das irmãs Brontë (Emily, O Morro dos Ventos Uivantes, e Charlotte, Villete). Watt (apud Tuman, 1992, p. 6/7) aponta duas ironias nesse fato. Uma delas é que essas experiências particulares e detalhadas fossem exploradas usando um meio tão impessoal e público quanto o texto impresso. E outra ironia é que o gênero literário novo que estava "menos preocupado com o público e mais com a vida privada do que qualquer um antes dele tivesse sido um produto da urbanização" (p. 7). O que isso nos sugere? Talvez, de um lado, um indício do crescente individualismo, da preocupação consigo mesmo; de outro, talvez, uma resistência à crescente organização impessoal e burocrática das economias modernas.

Diz Tuman que os leitores de romances, sozinhos em seus aposentos, conheciam mais detalhes a respeito da vida privada de suas heroínas do que muitas vezes conheciam sobre os membros da própria família. É interessante ver como a criação de uma nova forma de vivenciar a subjetividade, e de realizar a introspecção, foi mediada pela imaginação, pela criação de personagens que se tornam modelos para a existência de pessoas "reais". Logo, esse tipo de vivência levou à criação de diários. "Novos leitores urbanos, pela primeira vez na história, começaram a registrar seus próprios pensamentos íntimos", as reflexões sobre os sentimentos e os relacionamentos, num novo gênero literário, o diário. (p. 7)

Tuman e outros, como o historiador Peter Gay, mostram como esse cultivo da subjetividade tinha uma contraparte no próprio arranjo físico dos ambientes, das casas. Diz Tuman que o arranjo físico das casas urbanas cria um santuário privado e íntimo, que faz um paralelo com o refúgio íntimo propiciado pela leitura de romances ou pela escrita de diários. Romances, diários, reminiscências pessoais, poemas e até mesmo ensaios eram vistos como "uma vasta série de quebra-cabeças (...)" nos quais "pensamentos privados intensamente sentidos de uma pessoa eram engenhosamente empacotados para que outros lessem, em seus aposentos, em espaços e momentos privados," (p. 7) cuidadosamente zelados. Um ambiente da casa é reservado para a leitura e a vivência da introspecção. Os próprios móveis favorecem o cultivo da privacidade. Escrivaninhas cheias de gavetas, com chave, são perfeitas para guardar segredos, cartas amorosas, para trancar os diários.

As formas de vivência da subjetividade acima delineadas são típicas da cultura letrada pós Revolução Industrial. Quais são as formas de vivência da subjetividade típicas da cultura letrada de Revolução da Tecnologia da Informação, no meio da qual estamos hoje?

Uma forma de paradoxo intrigante hoje em dia é o diário online. Na cultura letrada anterior, o diário podia até ter aspectos públicos (podiam vir a ser publicados, um dia); mas não eram criados com a intenção de comunicar-se com o público, e sim, como uma forma de cultivo da interioridade, da vivência emocional no ambiente e nas relações privadas e selecionadas ("eletivas"). O diário online é paradoxal, porque envolve a introspecção realizada num ambiente totalmente escancarado, público, que é a Internet. No entanto, talvez exista aí uma certa ilusão. A escrita sempre foi uma atividade mais ou menos solitária. Ao escrever e imediatamente colocar sua página online, a passagem do privado ao público não é imediatamente evidente. Pode dar uma ilusão de segurança e privacidade, ao mesmo tempo em que está escancaradamente colocada num ambiente público. Essa ilusão talvez seja também propiciada pelo fato de que a maioria das pessoas acessa a Internet a partir de seu ambiente privado em casa, no quarto, no seu cantinho. A Internet cria um espaço público que não é necessariamente sentido como tal. Talvez a quebra dessa ilusão comece a ser sentida quando você ouve falar que, na intimidade quase secreta da leitura de seu email, pode chegar um email intruso com um dispositivo chamado "back oriffice", um programinha embutido que pode franquear o acesso às intimidades do seu disco rígido para qualquer intruso curioso localizado fisicamente em qualquer lugar do mundo.

A leitura e escrita no seu computador começa a refletir uma mistura do público e do privado; do "interior" (íntimo, privado) com o "exterior" (público, aberto, aparente, apresentável). Essa diluição de fronteiras (interno/externo) não é nova, já vinha sendo delineada por desenvolvimentos do próprio conhecimento científico, como veremos adiante. A reconfiguração do público e do privado, acredito, também pode ter correlações com as mudanças econômicas e políticas - uma linha a ser investigada.

Voltando ao diário online, parece uma ironia que se proliferem tantos relatos individuais em público, numa época em que cada vez mais indivíduos tornam-se descartáveis, supérfluos (ao mesmo tempo em que cada vez mais o novo software, a nova atualização ou upgrade se tornam tão necessários). Mas esse tipo de tensão ou ambigüidade não é diferente, neste aspecto, daquele verificado durante a industrialização acelerada e urbanização durante a Revolução Industrial.

À primeira vista, os relatos descritos no diário online são pouco ficcionais, são de fato um escancaramento da "verdadeira" pessoa. No entanto, parece que o que está acontecendo é o seguinte. A "verdadeira" pessoa torna-se um personagem para consumo das massas. "Empacotada" numa bela "embalagem" para tal fim - mesmo que o conteúdo do que se descreve seja desagradável, agressivo, árido, ainda assim trata-se de um produto. Poderíamos talvez chamar de "o cultivo da subjetividade como produto".

O "cultivo da subjetividade como produto" não é, necessariamente, uma aberração, mas sim uma possibilidade prevista na lógica da Revolução da Tecnologia da Informação. Castells explica que as novas tecnologias da informação não são somente ferramentas a serem usadas, mas processos a serem desenvolvidos. Usuários e desenvolvedores tornam-se o mesmo. Assim, os usuários podem tomar o controle da tecnologia, como no caso da Internet. Ocorre uma aproximação entre a cultura (criação e manipulação de símbolos) e a produção de bens e serviços (as forças produtivas). Pela primeira vez na história, diz Castells, a mente humana é uma força produtiva direta, não somente um elemento decisório do sistema de produção. (Os bens são a informação, ou as formas de processamento da informação).

Nesse quadro, parece-me consistente com a lógica interna desse paradigma da Tecnologia da Informação o cultivo da subjetividade como produto - já que a produção da cultura, a criação de símbolos, e a produção dos bens e serviços tendem a se confundir.

Vejamos, agora, uma variação do diário online. Trata-se de um "site", que foi bastante comentado há algum tempo, em que uma garota comum de seus 20 anos, americana, colocou uma câmara sobre seu computador, em seu quarto. Ela deixa a câmara ligada o tempo todo, mostrando seu quarto, e o que ela estiver fazendo que esteja no campo de visão da câmara. Essa imagem pode ser acessada por qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo.

Trata-se, de fato, de um registro "diário". Mas o interessante é que não se trata de compartilhar a intimidade de pensamentos, sentimentos complexos, interpretações dos eventos intensamente vividos, como no caso do diário fruto da cultura letrada tradicional. Mas sim, procura-se mostrar, dar a conhecer, os detalhes materiais e aparentes, como é o quarto, a cama, o namorado, a escova de dentes.

A bem da verdade, devemos lembrar que existe associado a essa câmara, agora, um diário escrito, mas que não é a atração principal, nem existia no começo da experiência desse site. (http://www.jennicam.org - atente bem para o endereço porque existem "sites" pornográficos com endereços eletrônicos parecidos, que não são objeto desta análise).

O interessante nesse site da JenniCam é que todo o aparato material supostamente privado (ou associado à vivência da vida privada urbana acima delineada), como a cama, a estante, a mesa de trabalho, o quarto, a sala) perde o sentido primário ao se tornar público, ao ser acessível para qualquer pessoa (há uma espécie de "explosão" do conceito de privado; mas ainda sabemos que aqueles são índices da vida privada. Isso cria uma tensão, uma oposição meio paradoxal que talvez explique em parte o grande sucesso de audiência que Jenni tem na Rede).

Uma digressão: essa confusão (ou a exploração da confusão) entre vida privada e vida pública esteve presente no recente caso de exposição do presidente americano. Trata-se de um fenômeno superficialmente parecido. Digo superficialmente, porque no caso do presidente americano há motivações políticas de direita muito bem arquitetadas (com a devida exploração de um fenômeno possível e previsível na atual configuração da sociedade de massas).

Voltando a atenção para as características da escrita na nova cultura letrada, podemos dizer o seguinte: uma característica é o favorecimento da padronização em detrimento da caligrafia, da embalagem em detrimento do conteúdo verbal. Os textos (hipertextos, emails, mensagens em chats), com isso, revelam que são produto de uma sociedade capitalista. Podemos comparar, por exemplo, esse tipo de tipografia padrão, industrial, do hipertexto, com a importância que a caligrafia tem ainda hoje entre os povos árabes, como forma de expressão visual e de estilo do artista, como forma de expressar realidades sagradas ou existenciais. É uma arte que se baseia numa rede de crenças, tradições, e instituições, como escolas de caligrafia e religião, assim como o hipertexto se baseia numa rede de suporte, de produção industrial e informacional, em uma cultura que se sustenta nos computadores em uma miríade de aspectos. (nota 1)

 

Quais são as características mais gerais dessa cultura? Quais os fatores tecno-econômicos que condicionaram essas novas formas de cultura letrada?

Castells (1998, vol. 1) lembra que uma revolução tecnológica, centrada nas tecnologias da informação, está reformulando, em passo acelerado, a base material da sociedade. As economias ao redor do mundo tornaram-se interdependentes, e surgiram com isso novas formas de relacionamento entre economia, estado, e sociedade. No entanto, alerta-nos, não podemos dizer, simplesmente, que a tecnologia causou isso tudo. A tecnologia - em todas as épocas - permeia a sociedade, de forma que não podemos nos ater a um determinismo simplista. Existe, de fato, um certo entusiasmo milenarista ou profético, e uma manipulação ideológica que caracterizam a maioria dos discursos sobre a revolução da tecnologia da informação, prometendo uma "nova era" magistralmente inaugurada pela expansão tecnológica e seus efeitos mágicos. No entanto, se por um lado criticamos o milenarismo, também não podemos subestimar a Revolução da Tecnologia da Informação. Para Castells trata-se de fato de um acontecimento histórico maior, como foi a Revolução Industrial no século XVIII. Só que, segundo ele, não podemos falar de causalidade, porque as mudanças ocorridas na base material da sociedade (nos dois casos) tornam a tecnologia, não uma fonte exógena de impacto, mas o tecido mesmo no qual a atividade humana está entretecida .

Mesmo assim, mesmo não se falando de causalidade, podemos rastrear a história desses desenvolvimentos. No caso da Revolução da Tecnologia da Informação, houve duas fases recentes importantes. Uma, entre 1940 e 1960, foi o impulso dado pelo chamado "complexo acadêmico-industrial-militar", conforme nos mostra Paul N. Edwards em The Closed World. O Estado americano, na forma das agências do Departamento de Defesa, investiu consideráveis quantias de dinheiro em contratos com Universidades e Institutos de Pesquisa, como o MIT, Harvard, e outros, para a criação do computador e sua utilização num sistema de defesa, bem como na aplicação do conceito de Comando e Controle nas guerras como a do Vietnã.

Uma segunda fase ocorreu em 1970, que Castells chama de "a revolução dentro da revolução". Ocorreu no chamado Silicon Valley, o Vale do Silício na Califórnia, uma região que se mostrou propícia ao avanço tecnológico pela concentração de institutos de pesquisa e ensino superior, e novas empresas, mais ágeis e dinâmicas que as grandes corporações. Nesse local, foi inventado o microprocessador, por um engenheiro da Intel, em 1971, o que então possibilitou a criação do primeiro microcomputador, o Apple, por Steve Wozniack e Steve Jobs em 1976. Castells nos lembra que mesmo o microprocessador foi um avanço tecnológico possibilitado pelo acúmulo de tecnologia, desde a invenção do transistor, em 1947, em New Jersey pelo Bell Laboratories, a introdução do uso do silício pela Texas Instruments, até a invenção do processo planar pela Fairchild Semiconductors (no Silicon Valley, em 1959), que possibilitou a integração de componentes miniaturizados com precisão, o que possibilitou a criação do circuito integrado por Jack Kilby, da Texas Instruments, e Bob Noyce, um dos fundadores da Fairchild, do Silicon Valley, e o primeiro a fabricar circuitos integrados usando o processo planar. O passo seguinte foi a mencionada invenção do microprocessador pela Intel, também no Silicon Valley.

O interessante a notar é que, apesar do financiamento militar que promoveu os estágios iniciais da cultura do computador, a "revolução dentro da revolução" que ocorreu no Silicon Valley trouxe consigo uma certa cultura da liberdade, da inovação individual, associada à cultura nos campus universitários dos anos 60. Apesar de o Silicon Valley ser um reduto do voto conservador, e da maioria dos inovadores não ter atitudes políticas explícitas, "tinham uma atitude de quebra de padrões de comportamento estabelecidos, tanto na sociedade em geral quanto no mundo dos negócios" (p. 5). Isso explica, segundo Castells, a ênfase em aparelhos personalizados, na interatividade, na formação de redes (tanto físicas quanto comunitárias), e a busca frenética por novidades tecnológicas mesmo quando não pareciam comercialmente vantajosas. Assim, continua, "embora tenha sido o estado, e não o empreendedor inovador em sua garagem, o iniciador da Revolução da Tecnologia da Informação, sem os empreendedores inovadores essa Revolução teria provavelmente características muito diferentes, e provavelmente não se teria desenvolvido na direção de recursos tecnológicos descentralizados e flexíveis que estão se difundindo em todos os aspectos da atividade humana". (p. 60)

Podemos dizer que a revolução dentro da revolução marca a passagem do computador de ferramenta (de comando e controle) para meio de expressão individual, meio maleável a partir da criatividade individual e palco para a encenação de dramas pessoais e criação de personagens para veicular a experiência vivida, emocional, a imaginação mesmo caótica.

Como diz Castells, o paradigma da tecnologia da informação não evolui na direção do fechamento como um sistema, mas na direção da abertura como uma rede de muitas beiradas.

Chamo a atenção para o seguinte: este artigo (bem como a palestra no qual ele se baseou) faz parte do paradigma anterior, do modelo do texto fechado cultivado no período da Revolução Industrial. Alguns pesquisadores da cultura letrada, como Jay Bolter, já mostraram como os hábitos de pensamento criados com o cultivo da escrita acabam influenciando as formas de falar das pessoas letradas, mesmo em situações informais e cotidianas. E, claro, também influenciam na criação de gêneros discursivos orais da cultura letrada, como a palestra. Assim como ocorre com o ensaio e o livro, o espaço conceitual da palestra é um espaço fechado (com começo, meio e fim) e argumentativo, isto é, possui certas regras de coesão e encadeamento lógico entre unidades de texto/discurso. Esse tipo de cultura letrada é, como indicamos, típico do paradigma tecno-social criado pela Revolução Industrial. Já o paradigma tecno-social da Revolução da Tecnologia da Informação favorece o modelo da rede (nas organizações sociais, nas formas de aprendizagem e também na estrutura dos textos). O modelo da rede é aberto, multi-direcional, sem fechamento e, numa certa medida, imprevisível. É a experiência caótica dos "chats", por exemplo. Traz a excitação da descoberta, da aventura.

O modelo da rede é aberto tanto com relação a possibilitar múltiplas entradas quanto no sentido de que a direção de seu desenvolvimento (discursivo, organizacional, etc.) é criada a cada momento, é imprevisível de antemão. É "emergente", para usar um termo corrente na Ciência Cognitiva atual.

Não vamos, no entanto, nos deixar enganar com essa característica de "abertura". "O paradigma da tecnologia da informação é poderoso e impositivo em sua materialidade", diz Castells. Isto é, permeia a base material de nossa cultura, sociedade, etc., não podemos ignorá-lo nem "saltar fora", porque não há fora. "Mas é adaptativo e aberto em seu desenvolvimento histórico. Abrangência, complexidade e formação de redes são suas qualidades decisivas", ele continua.

Chamo a atenção para o aspecto que considero mais importante, abordado por Castells em sua trilogia (The Rise of the Network Society, The Power of Identity, e The End of Millenium), que é o seguinte:

Dado o caráter de abertura, múltipla participação e múltiplos pontos de vista do modelo da rede, pode-se facilmente ser levado a acreditar que se trata de um modelo democrático. O que Castells nos mostra em sua obra, pela análise de vários casos específicos, empíricos, do uso da tecnologia das redes (especialmente da Internet) em vários locais do mundo, é que a rede se presta igualmente aos movimentos democráticos quanto reacionários, aos reativos quanto aos pró-ativos, aos de esquerda clássica (como o movimento camponês-indígena de Chiapas, no México) quanto à nova direita (como os movimentos de milícia americana, que tanto preocupam o governo federal dos Estados Unidos). Em todos esses casos, o caráter aberto e descentralizado das redes foi aproveitado com eficiência, mas em função de movimentos políticos ideologicamente muito diferentes, muitos dos quais essencialmente antidemocráticos.

 

Acho importante chamar a atenção para isso porque considero que, à luz dessa análise, é uma ilusão pensar que o uso do modelo das redes no ensino, por exemplo (Internet, hipertexto, hipermídia/multimídia) será automaticamente, por direito próprio, democrático. Pode muito bem não o ser, ou ser o contrário disso (mesmo em se tratando de um ambiente restrito como uma sala de aula de colégio de elite; nem estou considerando, ao dizer que pode ser não-democrático, o fato concreto de exclusão material de um grande contingente humano do acesso às redes e à nova cultura letrada). A única coisa que a introdução do modelo da rede no ensino favorece é o adestramento dos alunos nos comportamentos requeridos pela lógica interna do paradigma da tecnologia da informação. Talvez um adestramento necessário para a sobrevivência no mundo de hoje, mas que no entanto nada diz, nada ensina e nada transmite, automaticamente, a respeito de valores e afetos. A atuação da comunidade rodeante (família, professores, colegas, líderes) é fundamental, ainda, para a direção em que a tecnologia será usada, e para determinar se os afetos relacionados a ela serão vividos de forma saudável ou indesejável.

Uma observação, agora, a respeito do termo paradigma, tantas vezes utilizado aqui. Refiro-me ao uso adotado por Castells, mas desenvolvido por três pesquisadores, Carlota Perez, Christopher Freeman e Giovanni Dosi, que adaptaram a análise clássica das revoluções científicas de Kuhn, aplicando-a às transformações tecnológicas maiores nas sociedades. (nota 2)

 

 

A interação no cyberespaço: real ou virtual

 

Como prometido, vamos agora nos deter sobre os termos utilizados no título deste artigo. Primeiro tomaremos o termo "cyberespaço" e o dividiremos:

Espaço: o termo espaço sinaliza a mudança do computador "ferramenta" para o computador "meio", tanto meio de comunicação e expressão quanto meio ambiente, palco, espaço para a vivência dramática: vivência de emoções e de personagens que projetamos nesse meio.

Espaço que, no entanto, deixa de ser literalmente espacial, perde suas presumíveis características geográficas quando podemos saltar, em um instante, da minha casa até uma universidade em Berlim, de lá até um comitê político de mulheres na Palestina ou a um convento de missionárias na China. Todas essas "mudanças" espaciais não são perceptíveis na tela do computador, que mostra a cada momento uma página mais ou menos parecida (a despeito da criatividade dos webmasters), em seqüência rápida: o tempo transcorrido no percurso, que dava a idéia de deslocamento espacial, é praticamente nulo; a instantaneidade, a velocidade absurda abolem o espaço, ou a percepção do espaço tradicional. Então, afinal, que espaço é esse? Cria-se uma percepção espacial diferente, com suas possibilidades e limites próprios. Para alguns autores (como Jay Bolter) cada forma de escrita cria seu próprio espaço conceitual. O espaço conceitual do livro é o de um argumento amarrado com começo, meio e fim. O espaço conceitual do computador é o da deriva e simultaneidade de pontos de vista possibilitada pelo hipertexto, pelo modelo da rede.

Cyber remete à cibernética. Para a cibernética, a separação interno-externo não é a tradicional. Importam os fluxos e as regulações.

"Uma propriedade fundamental das máquinas é poderem ser acopladas. Podemos acoplar duas ou mais máquinas inteiras de modo a formar uma única máquina; e qualquer máquina pode ser encarada como constituída pelo acoplamento de suas partes, por sua vez concebíveis como pequenas submáquinas. O acoplamento é de profunda importância na ciência, pois quando o experimentador desenvolve uma experiência ele se acopla temporariamente ao sistema que estuda". W. Ross Ashby, 1970

E, acrescentaríamos, o humano ao usar o computador forma uma máquina, um único sistema para determinado nível de análise. Lembremos que o conceito de máquina em cibernética é um conceito formal, não tem necessariamente a ver com um aparato físico específico.

Juntemos agora as duas expressões: Cyberespaço. Eis uma palavra híbrida, uma mistura de inglês e português. O uso do inglês, é evidente, remete ao traçado histórico do desenvolvimento dessa tecnologia, de que não devemos nos esquecer; e também remete a uma determinada situação geopolítica (afinal, quem determina os rumos do capitalismo mundial, mesmo ou principalmente no novo paradigma tecno-político? Acreditar que, de fato, qualquer um pode contribuir e determinar a direção de seu desenvolvimento é mais uma das ilusões do milenarismo na nova era tecnológica, mais uma ilusão que devemos descartar).

Finalmente, o hibridismo também nos remete a um outro conceito menos óbvio, a diluição das fronteiras, um fenômeno abstrato típico do cyberespaço. Trata-se da diluição das fronteiras entre humano e máquina, mas também, menos obviamente, entre humano e animal, diluição essa proporcionada pelo paradigma cibernético (em que um mesmo sistema formal pode ser usado para descrever robôs, computadores, máquinas, o corpo humano, a mente humana, o organismo animal, a população de animais, a sociedade, etc). Estou aqui pensando tanto na cibernética clássica, como nos seus desdobramentos na Ciência Cognitiva atual, a cultura das simulações, etc. A utopia (ou distopia) aqui é a busca da engenharia social, individual, mental, além de organizacional, técnica.

A diluição das fronteiras, ou o hibridismo, implica na concepção de espaços impuros, categorias não dicotômicas, lembra-nos de um fenômeno recorrente no cyberespaço que é o passar-se por um animalzinho, por um robot (programa que responde automaticamente), ou por uma pessoa de outro gênero sexual. Remete, aqui, à vivência das multiplicidades. A expressão da multiplicidade já tinha sido anteriormente possibilitada no paradigma da cultura letrada tradicional (Revolução Industrial): isto é, a expressão de diversas vivências individuais possibilitava a expressão da multiplicidade no corpo coletivo. Agora, a multiplicidade pode ser expressa por cada indivíduo, pois sua expressão no cyberespaço é multi-direcional, multi-participativa. Cada indivíduo pode ser vários.

Em suma, a pessoa pode expressar-se de formas múltiplas no cyberespaço, ou, como dissemos anteriormente, pode criar personagens, torna-se ela mesma um personagem. Vamos aqui citar um caso famoso, contado por Sandy Stone. Em seu livro, The War of Desire and Technology at the Close of the Mechanical Age (A guerra entre desejo e tecnologia no final da era mecânica), Sandy Stone conta-nos o caso de um certo psiquiatra chamado Sanford que em 1982 adquiriu uma conta de acesso no provedor CompuServe, e se conectou com o "nickname" "Doctor" (uma prática comum nos chats, por exemplo). Sanford começou a conversar no chat, uma mulher passou a conversar com ele no reservado (nos chats, podem se conectar várias pessoas ao mesmo tempo e a conversa pode ser pública, ou tornar-se reservada entre duas pessoas quando elas assim selecionam). Sanford achou a conversa muito reveladora, diferente de qualquer conversa que ele tinha tido antes. Não sabia por que, até que percebeu que a mulher pensava que ele era também mulher, porque o nick Doctor em inglês é neutro para gênero. Sanford - depois relata - achou que podia se conectar passando por mulher, para ter mais acesso às mulheres e assim poder ajudá-las com seus problemas emocionais, empregando sua formação de psiquiatra. Passou a conectar-se como Julie, e criou toda uma história e uma apresentação para ela. Para não se revelar, ele teria que ter uma desculpa plausível para que Julie nunca pudesse estar presente nas reuniões ao vivo que os amigos que fez no chat freqüentemente realizavam. Julie era então apresentada como uma mulher muito inteligente e dinâmica, mas que havia sofrido um acidente terrível que a deixara desfigurada e paralítica, o que a impedia de ter vida social. O acesso ao computador era, então, a única vida social que ela podia ter. E ela aproveitava bastante. Fez muitas amigas, dava-lhes conselhos, por exemplo, estimulando uma amiga de meia idade a voltar a estudar, apesar da oposição do marido dela. O personagem Julie - que se apresentava como uma pessoa "real" - foi se desenvolvendo, ela era espirituosa, imprevisível, às vezes conectava-se "viajando" por ter fumado maconha, ou então, emitia opiniões fortes, dizia ser atéia; tinha contatos bastante "quentes" de "sexo virtual" com seus amigos online, e mesmo as amigas, etc. Foi desenvolvendo uma história, disse ter conhecido pela rede um rapaz que era policial, bonitão, e que não se importara com sua deficiência física e casou-se com ela. Julie foi, então, viajar - apesar da inconsistência com a fase inicial da personagem, que por ser supostamente desfigurada nunca saía de casa - e enviou cartões postais, de fato, para os endereços reais de seus amigos virtuais.

Aos poucos, o autor dessa personagem cada vez mais real, Sanford, foi se sentindo desconfortável. Ele não era como Julie, tinha pouco impacto social quando se conectava como Sanford mesmo. Ele não era ateu, era judeu crente. Era careta, anti-drogas, nunca iria entrar em uma interação de sexo virtual. Ele queria ir pouco a pouco abandonando a representação de Julie, e se apresentar como Sanford, mesmo. Tentou fazer com que Julie apresentasse Sanford como um amigo "incrível, fantástico", só que sua atuação na rede não ficou à altura da apresentação. Julie já era muito mais forte, mais "real" do que Sanford na rede. Julie tinha se tornado uma persona paralela, algo entre um personagem literário e uma persona social. Mas sua interação com a vida das pessoas era real.

Então Sanford tentou "matar" Julie. Inventou que ela tinha ido parar no hospital - o suposto marido policial conectou-se com a conta de Julie e avisou seus amigos online. A comoção foi muito grande. Todos queriam enviar cartões postais para ela. Como um hospital tinha sido mencionado, enviaram cartões postais para lá. Tanto foi a comoção, que Sanford voltou atrás e não teve coragem de "matar" Julie. No entanto, algumas pessoas foram ficando desconfiadas. Alguém obteve o telefone do hospital, e descobriu que não tinha nenhuma Julie de Tal internada lá. Outras pessoas, mulheres que eram deficientes físicas na vida real, e conheciam os problemas pessoais e interpessoais de serem deficientes, também desconfiavam. Finalmente, veio à tona o "fato" de que Julie "não existia".

Mas como "não existia", se tinha feito tantas amizades ao longo do tempo, tinha até mudado a vida de algumas de suas amigas, por exemplo, convencendo uma delas a voltar a estudar, dando conselhos afetivos para outras amigas, etc? Os amigos - e principalmente as amigas - passaram por um processo de luto pela "perda" da amiga Julie, e de revolta por terem sido "enganadas", mesmo as que foram "ajudadas".

Stone relata um outro caso parecido, um outro caso de persona artificial criada no Research Lab da Atari, em que o chefe do laboratório foi apresentado para a empresa toda, Arthur Fischell, com todo um perfil pessoal e profissional, interagia por email, telefone, aparecia em videoconferência... mas era uma persona artificial e ninguém percebeu. A pronúncia de Arthur Fischell, em inglês, é próxima de "artificial". No caso, era um personagem/persona com criação coletiva. As pessoas interagiam de fato com Julie, com Arthur Fischell, como com outros seres humanos, normalmente.

Voltando um pouco do anedótico para o teórico, fica a questão: Julie e Arthur Fischell são ou não reais?

Edwin Hutchins pergunta: por que os seres humanos atuais são mais inteligentes do que os homens da caverna? Ele sugere que isso se deve não porque sejamos mais inteligentes, mas porque desenvolvemos ambientes culturais mais inteligentes nos quais funcionar. (segundo Hayles, 1998) . Lucia Santaella chama de "expansão da noosfera", a expansão do universo dos signos, a multiplicação de signos culturais possibilitada pela fotografia, jornais, livros impressos, etc. que mudaram os ambientes onde vivemos e funcionamos. Sem entrar numa discussão filosófica sobre o que é real (mas podemos entrar logo mais nessa discussão), podemos dizer que era tão real a interação dos usuários da CompuServe com Julie, quanto com as manchetes do jornal matinal.

Um pouco mais teoricamente, pelo paradigma cibernético, tratam-se de signos sendo transferidos, todos são reais, todos podem interferir na vida prática das pessoas. Todos criam possibilidades de resposta e de regulação (social, pessoal).

Para finalizar, vamos agora introduzir uma distinção filosófica entre real e virtual. Essa distinção serve para resgatar o conceito de realidade objetiva, independente das interpretações e atuações humanas.

Há algum tempo vi alguém propor a distinção entre real e virtual com base em uma dicotomia simples: o real não depende de nós, o virtual depende de nós. "Nós", imagino, referia-se a "seres humanos". Em resposta, propus o seguinte: essa dicotomia é muito simples, vamos aplicar a distinção que Searle propõe em The Construction of Social Reality. Suponhamos que exista uma realidade objetiva independente da existência de seres humanos (isto é, na terminologia de Searle, fazendo referência a Putnam, o que existe para o "olho-de-deus"). Searle chamou-a de ontologicamente objetiva. Contrasta com o epistemologicamente objetivo, que é o que existe somente porque os seres humanos convencionaram que se trata de tal coisa, ou usam tal coisa como parte da existência humana (que é ao mesmo tempo simbólica e prática, cultural e ativa). Por exemplo, uma chave-de-fenda só é chave-de-fenda porque existem seres humanos que tratam esse arranjo de matéria (no exemplo de Searle, metal e madeira) como chave-de-fenda. Mas, para o "olho-de-deus", só existe o metal e a madeira (são ontologicamente objetivos).

Julie também existe somente porque acreditamos que existe (ou enquanto acreditamos que existe). O virtual, portanto, é epistemologicamente objetivo - e ontologicamente (inter)subjetivo, como a Julie de Sanford, para os que interagiam com ela. Mas, ontologicamente objetivo, talvez, seja só uma certa configuração de elétrons, silício e carbono.

 

 

Maria Elisa Marchini Sayeg

psicóloga, doutora em Educação pela USP

palestra apresentada integralmente no I PsicoInfo - Seminário Nacional de Psicologia e Informática

Conselho Federal de Psicologia

Centro de Convenções Rebouças, 1998

palestra disponível em vídeo 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASHBY, W. Ross (1970) Introdução à cibernética, São Paulo, Perspectiva.

BOLTER, Jay D. (1991) Writing Space: The Computer, Hypertext, and the History of Writing, Hillsdale, New Jersey, Lawrence Earlbaum Associates.

CASTELLS, Manuel (1998) The Rise of the Network Society (Vol. 1 da trilogia The Information Age: Economy, Society and Culture), USA/UK, Blackwell Publishers (publicado inicialmente em 1996).

CASTELLS, Manuel (1997) The Power of Identity (vol. 2 da trilogia) USA/UK, Blackwell Publishers.

CASTELLS, Manuel (1998) The End of the Millenium (vol. 3 da trilogia) USA/UK, Blackwell Publishers.

EDWARDS, Paul N. (1996) The Closed World - Computers and the Politics of Discourse in Cold War America, Cambridge, Mass., and London, England, The MIT Press.

HAYLES, N. Katherine (1998) "Posthuman" email para a lista de discussão do "Critical Forum <artistic practice in the network> <eyebeam> < blast> " do Atelier Eyebeam (1 Feb to 30 April 1998) eyebeam@list.thing.net [http://www.thing.net/eyebeam/msg00041.html] 09 Feb 1998

SANTAELLA, Lúcia (1996), Cultura das mídias, São Paulo, Experimento.

STONE, Allucquère Rosanne (1996) The War of Desire and Technology at the Close of the Mechanical Age, Cambridge, Mass., and London, England, The MIT Press.

SEARLE, John (1995) The Construction of Social Reality , New York, Free Press.

TUMAN, Myron C. (1992) WordPerfect: Literacy in the Computer Age University of Pittsburgh Press

 

 

 

NOTAS

nota 1

Calígrafo Árabe

O jornal Folha de S. Paulo publicou entrevista com Hassan Massoudy, por Aida R. Hanania
Folha de S.Paulo, 10 Mar 1996, Mais!, p. 5-8. Hassan Massoudy é "o calígrafo árabe mais conceituado da atualidade e, sem dúvida, o mais destacado do Ocidente". Um traço marcante de sua obra é "(já pelo conteúdo, já pela forma) a presença do Oriente e do Ocidente", sem contradição mas em relação de complementaridade. A partir da entrevista, faço algumas observações [grifos meus nas citações].

Destaco do relato de Hassan Massoudy sobre a arte da caligrafia, algumas características:

1) A importância do aspecto sensorial - cores, lidar com os materiais diferentes, talhar o instrumento ao seu gosto

Hassan Massoudy - "As letras têm ritmos visuais de grande beleza. Cada letra, palavra ou frase, tem sua geometria latente; cada estilo caracteriza-se por um aspecto que é reconhecido por todos: a sensualidade das curvas para a escrita (estilo Diwani); traços curtos e aproximados para o estilo da administração local (estilo Roq'a) etc... Numerosas outras regras passaram a reger esta arte, sendo, desde o século 10 até hoje, seguidas e valorizadas pelos estilos farsi, thulthi, kufi etc. "

Massoudy - "(...) Talho o bico em viés, de maneira levemente diferente, seguindo o estilo da caligrafia que pretendo fazer. É um instrumento que se pode adaptar à sua própria mão, às próprias necessidades. É um instrumento fantástico e o utilizo com freqüência. Entretanto, ele tem uma limitação: sua largura. No passado, quando o calígrafo desejava fazer grandes caligrafias, escrevia com dois cálamos afastados por um pedaço de madeira da largura desejada para a escrita; depois, enchia o espaço com pincel.


"No que me concerne, quando quero caligrafar palavras cuja largura é maior que a do caniço, procuro materiais que, por sua textura, podem substituí-lo. Experimento. Faço testes com vários materiais: esponja, madeira, cartão, escova... e às vezes descubro novos materiais com novos efeitos sobre o papel; são verdadeiros achados que jamais imaginava descobrir. Quanto às tintas, eu mesmo as preparo (seguindo, de perto, processos milenares), com pós coloridos e colas, basicamente. "

 

2) A importância das conotações emocionais - trata-se de um belo instrumento, que o homem usou para construir abrigos, fazer flautas...

Massoudy - "Tradicionalmente, o calígrafo árabe utiliza um caniço talhado (cálamo) para escrever. Gosto muitíssimo deste instrumento; de início, porque é belo: é de madeira clara e reluzente; por outro lado, trata-se de uma planta que o homem utilizou muito, desde a pré-história, para construir abrigos. O caniço foi ainda, um dos primeiros instrumentos de música: a flauta. Quando os homens puseram-se a escrever, deixaram a marca de um caniço na argila fresca... "

3) A importância da inserção cultural e da criação de códigos - toda uma estética foi criada nessa época, os califas davam recursos para os calígrafos realizarem pesquisas, os calígrafos intercambiavam suas experiências e estabeleciam códigos

Massoudy - "No primeiro século do Islã, a administração utilizava muito a língua grega. Havia muitos tradutores gregos que trabalhavam para os árabes. Eles introduziam em países do Islã numerosos conhecimentos referentes à escrita. Mais tarde, a caligrafia tornou-se a primeira arte do poder islâmico, concedendo muitos recursos aos calígrafos para fazerem pesquisas. Conta-se que alguns ganhavam uma quantidade de ouro equivalente ao peso dos livros que caligrafavam. Toda uma estética foi criada nessa época. De início, os diferentes estilos, isto é, as diversas interpretações gráficas de cada letra relativamente à utilização variada da escrita: um estilo para o texto sagrado, um para a correspondência do califa, outro para a poesia...

"No século 9º o Islã era um cruzamento dinâmico de encontros culturais. Os calígrafos intercambiavam suas experiências. Códigos foram estabelecidos para cada estilo; proporções ideais entre a largura e altura, a forma interna da letra. Igual pesquisa foi feita em face da construção de versos, da métrica em poesia e dos ritmos musicais. (...) curvas para a escrita (estilo Diwani); traços curtos e aproximados para o estilo da administração local (estilo Roq'a) etc... Numerosas outras regras passaram a reger esta arte, sendo, desde o século 10 até hoje, seguidas e valorizadas pelos estilos farsi, thulthi, kufi etc. "

 

A escrita no computador também tem aspectos sensoriais (mais voltados para o visual do que o lidar com os materiais), tem conotações emocionais (mas talvez mais ligadas ao status, mas também ao dinamismo, modernidade, velocidade), e depende da inserção cultural e da criação de códigos, convenções, protocolos, e da criação de redes de intercâmbio de experiências.

 

nota 2

As principais características do novo paradigma tecno-econômico para Perez, Freeman e Dosi são:

1. "a informação é a matéria prima. Tratam-se de tecnologias para lidar com a informação, ao invés de somente informação para lidar com a tecnologia, como nos paradigmas anteriores."

2. "difusão ampla dos efeitos das novas tecnologias. Já que a informação é uma parte integral de toda atividade humana, todos os processos de nossa existência individual e coletiva são diretamente moldados (embora não determinados) pelo novo meio tecnológico. "

3. "a terceira característica refere-se à lógica de redes de qualquer sistema ou conjunto de relacionamentos que usem essas novas tecnologias da informação. A morfologia da rede parece ser bem adaptada à crescente complexidade da interação e a padrões imprevisíveis de desenvolvimento que surgem do poder criativo de tal interação." [algo que já comentei neste artigo].

Castells, Manuel The Rise of the Network Society p. 61

 

 

Revista Tesseract

ISSN 1519-2415

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Edição 5 - julho 2001

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