Revista Tesseract
ISSN 1519-2415
“O CRAVO...BRIGOU COM A ROSA...”
NOELIZA LIMA
A auto-estima é um assunto que demanda estudos
e pesquisas, visto que nas várias práticas, e não só da psicologia, observam-se
que pessoas com baixa auto-estima tendem a desenvolver mais facilmente
transtornos psicológicos e físicos. Esta relação já é bem definida por
especialistas na área psicossomática. Da mesma forma, ao desenvolver sua
auto-estima, esta mesma pessoa adquire maiores possibilidades de atuação em
qualquer área, ampliando sobremaneira seu círculo de relações.
A discriminação é fator
preponderante no desenvolvimento do auto conceito. Em nossa sociedade, pessoas
diferentes do usual são isoladas, e isto provoca ou reforça uma visão pobre de
si mesmo.
Um sistema, ao privilegiar determinada
raça, posição econômica, idade, aparência, sexo e gênero, etc., estabelece parâmetros
que vão contra os direitos humanos e a possibilidade de crescimento individual
e social.
Este artigo pretende enfocar a
auto-estima como um viés do gênero, assim como sua relação com o roteiro de
vida da mulher. Ao enfocar as relações de gênero, pretende-se também enfatizar
a necessidade da psicologia emprestar seu olhar a esta questão.
Ao estabelecer a igualdade na
diversidade, por coerência, os substantivos e adjetivos que estão no masculino
– independem de sexo e/ou gênero. O estudo do caso foi feito acerca de um casal
heterossexual, (assim como a música infantil).
Segundo Flax (1995), a relação entre homem e mulher é
assimétrica. A questão da assimetria
remete à questão do gênero, que significa a diferença de justiça, direitos
e principalmente qualificação da mulher em relação ao homem, diferença esta
criada a partir da instalação do patriarcado e mantida pela sociedade. Podemos dizer que repete a relação dialética
de Hegel (Coreth, 1973), em que um é o Senhor e o outro o Escravo. Um não
reconhece o outro em sua forma pessoal de sabedoria, em sua forma de ser no
mundo.
Para se entender gênero é necessário que se distinga sexo de
gênero.
Sexo é o componente
genético anatômico e funcional, que estabelece a diferença entre homem e
mulher. Gênero é a configuração histórica, social e política que distingue o
homem da mulher, e a forma como esse contexto é elaborado psicologicamente
pelas pessoas. Refere-se aos papéis instituídos socialmente para o homem e para
a mulher e por eles desenvolvidos ao longo da vida.
Quando discutimos a função reprodutora da mulher, estamos
discutindo tanto sexo (porque se refere às possibilidades fisiológicas do sexo
feminino), como gênero (porque se refere ao papel de mãe estipulado pela
cultura e sociedade, e a forma como esta mãe lida com este conceito).
Este é o discurso
concreto do gênero, que se reveste de um significado de reparação e
reconstrução da identidade feminina. O discurso psíquico ou latente (encoberto)
é de que a mulher propicia o aumento de poder do homem, ao abdicar de suas
possibilidades enquanto ser que se constrói. Considera o homem o depositário de
suas demandas, o herói de seus sonhos, o cavaleiro andante que irá resgatá-la
de uma vida passiva e sem sentido (Holanda, 1992). Coloca todas as
possibilidades de reforçamento na figura masculina. E mesmo que tenha outras
atividades não as faz com a mesma paixão com que se dedica ao homem. A
necessidade de concretização do sonho amoroso pode então levar a mulher a se
esquecer de si mesma.
Exemplo: trecho de uma
reunião de grupo de reflexão para mulheres. Os nomes são fantasia.
“Rosa diz que não suporta
mulheres que gastam com compra de roupas. Ao ser questionada por Mimosa,
justifica dizendo que sua opção política é contrária ao capitalismo, cujo
principal designativo é o consumismo exacerbado.”
Trata-se aparentemente de uma questão de
valores. Isto é o aparente. Entretanto, qual seria o ‘encoberto’, ou latente,
que leva uma pessoa a sentir raiva de outra que compra?
Em sua história de vida, Rosa foi
continuamente excluída de várias atividades escolares e sociais. Questionava as
regras vigentes, desde a forma com que se atribui uma nota no ginásio, até como
se vestir para um acontecimento social. Atualmente vive com um homem (Cravo)
há dois anos, sem contrato assinado. Umas de suas queixas é a falta de erotismo
na relação.
Falando marciano (Berne, 1974), ou seja,
lendo o latente de forma intuitiva e criativa, o (a) analista percebe que Rosa
manifestou, desde o início, uma postura rebelde. Na primeira infância, até onde
se sabe é que se sentia só e sem carinho. Sua relação com o pai era difícil,
mas não foi possível obter mais dados
sobre isso. Segundo Maslow (1987), Rosa se encontra em busca de
segurança, necessidades sentidas pelos adultos durante emergências, e períodos de desorganização na estrutura
social (crises monetárias, violência social, etc.). Estas necessidades são
sentidas mais freqüentemente por pessoas que, quando crianças, experimentaram
insegurança resultante de abandono ou perda de afeto.
Continuando esta reflexão pela análise
do roteiro de Rosa (Berne, 1974) há que se esclarecer alguns pontos
referentes a esta análise.
Roteiro de Vida ou
Script é um conceito da Análise Transacional, método psicodinâmico criado por
Eric Berne. Significa que por meio da forma em que a criança se sente perante
pais e figuras importantes, adquire uma visão não realista acerca de si mesma.
Se isto não for reavaliado no discurso real, a pessoa estará sempre seguindo
papéis aprendidos com o objetivo de sanar situações temidas. Para justificar
seu estilo de vida ‘mágico’, a pessoa utiliza suas defesas (Klein, 1975). O
script individual sofre influências histórico - culturais, e familiares.
Uma mulher com roteiro psicológico de
Chapeuzinho Vermelho, evita homens protetores (como o lenhador da história),
buscando homens interessantes (Lobo Mau), ou sejam, aqueles que trazem agonia
e êxtase.
Seguindo este raciocínio, muitas mulheres
encontram bons companheiros, e pela aprendizagem da baixa auto-estima, atuam no
relacionamento de forma a convidar o homem a se tornar um ‘parceiro’ de
roteiro, ou seja, a exercer papéis complementares (Caracushansky, 1982),
comprovando situações temidas pela mulher, fantasias que vivencia ao longo de
seu crescimento (a confirmação de que é má, de que não nasceu para viver junto
com o(a) parceiro(a), que não é interessante, etc).
O homem também, ao colocar seu roteiro
em curso, mesmo se casando com uma princesa pode enviar mensagens subliminares
de forma a convidá-la a ser uma ‘madrasta de Branca de Neve’, um outro exemplo
de confirmação de roteiro.
Isto leva a expectativas frustradas por
parte da mulher e do homem.
Mudar o roteiro é possível desde que a
mulher rejeite o papel cultural a ela imposto. Na maioria dos casos a mulher
não tem consciência do quanto é forte o condicionamento cultural,
acreditando-se muitas vezes com ‘má sorte’, culpando parceiros, exagerando a
parte psicológica.
Duas pessoas que vivem juntas têm a
mesma responsabilidade no
estabelecimento da relação. Então imagine se Rosa e Cravo
têm roteiros complementares. Rosa, querendo resolver uma situação de abandono,
e Cravo, querendo vingar-se (não conscientemente) dos maus tratos em
infância. Rosa projeta em Cravo a expectativa do abandono, e Cravo
projeta em Rosa a figura de uma mulher raivosa e infeliz. Ambos não se
sentem inseguros um em relação ao outro, têm dificuldades em confiar, suspeitam
de não serem amados, e tudo o mais que estas fantasias infantis trazem. Se
alguma expectativa catastrófica importante é confirmada, como a entrada de
outra pessoa na relação (pode ser até a sogra), ambos os parceiros se sentem
ressentidos e abandonados.
A história cultural de submissão feminina,
a expectativa de que a mulher seja (como tem sido através dos séculos) a
‘cuidadora, a santa, a tarefeira’, faz com que na maior parte das vezes ela se
sinta humilhada.
Segundo o exemplo do casal, se Rosa
superprotege o marido, o faz em virtude das manipulações de que é vítima, das
exigências sociais introjetadas, e por medo de perdê-lo. Cravo também é
vítima de uma história cultural que o coloca como superpessoa, dono da verdade,
e sem poder expressar seus sentimentos ( para ele - sinônimo de debilidade),
entre outras características de gênero. Além disto tem seus receios e fantasias
infantis introjetadas. Ao ver a esposa como sua mãe, tem dificuldades em
tratá-la como fêmea, auxiliando na falta de erotismo da relação. Não expressa
suas dificuldades perante a necessidade de maior sensualidade da mulher e os
sentimentos de menos valia que isto lhe acarreta. Teme tanto a crítica da
esposa–mãe, quanto a crítica social introjetada.
Parece claro que as velhas questões de
moral merecem ser questionadas em favor da auto-estima, visto que a mesma exige
um posicionamento de confronto consigo mesmo, do que se busca e do que é
ensinado.
Considera-se pertinente refletir se
estará a psicologia pronta para lidar também com a configuração histórica à
qual a configuração psíquica se remete.
Segundo Lima, (2000), a
leitura psicológica da questão de gênero é nova e pouco consultada por
psicólogos, e interfere em todas as áreas em que a psicologia atua, visto que é
uma questão histórica, cultural, social e política.
Segundo Boyd (1996), a
ciência deve ser questionada quando o momento assim o exige, visto que a
ciência foi criada pelo homem e portanto ao ser humano se deve remeter.
No momento em que o
psicólogo, cujo compromisso é com a qualidade de vida dos ser humano, se
defronta com danos causados por uma sociedade regredida no assunto do valor do
cidadão, deve proceder ao seu trabalho de agente transformador, com
consciência, ética e eficiência.
Novas formas de relações
afetivas estão se formando, a maioria quebrando valores e trazendo novos ganhos
e novos enfrentamentos. O grupo social mais conservador aceita aos ‘trancos e
barrancos’ esta mudança, não sem culpar os novos paradigmas de pensamento.
Nossas crianças ainda são criadas para a orientação heterossexual. Aquelas que
sentem dentro de si uma orientação diferente deixam os pais e seu círculo mais
chegado atônitos, por não saberem o que fazer. Buscam mudar os(as) filhos(as)
como se fosse uma questão de aprendizagem. Poucos, mais sábios e confiantes,
deixam que a criança cresça do seu jeito, acreditando que a livre opção deve
ser incentivada, em todos os campos.
Isto reflete uma
possibilidade de evolução social, sugerindo que somente através da verdade
interna de cada um, e do diálogo psicologia – sociedade, poderemos efetivamente
auxiliar neste momento transformador.
BIBLIOGRAFIA
BERNE,
E., Qué dice usted después de decir ‘hola’?, La Psicologia del Destino
Humano,
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Transacional, In Revista Brasileira de Análise
Transacional, REBAT, editora da UNAT, ano VI, nº 1, ISSN:
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CARACUSHANSKY, S., Mitanálise,
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KLEIN, M., RIVIERE, J. Amor, Ódio e
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LIMA, N. Experiências de um Grupo de
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2000. Orient. Prof. Regina M.L.L.Carvalho. Resumo disponível em
arquivo, nesta revista.
______Women
Rights: Berne’s Groups Dynamic [trabalho apresentado. In: ITAA August
Conference, San Francisco, 1999]. Programa Disponível on line
[http://www.itaa-net.org]
MASLOW, A ., FRAGER, R., FADIMAN, J., Motivation and Personality, Addison – Wesley
Pub Co; London, 1987, 3ª ed.
Noeliza Lima é psicóloga, CRP 6/505, Mestre em Psicologia
Clínica (PUCCAMP). Didata em Análise Transacional. Facilitadora de grupos em
Auto-estima, Gênero, Motivação e Desenvolvimento de talentos. Professora
Universitária.
noeliza@hotmail.com
http://geocities.yahoo.com.br/noelizapsy/desenvolvendo_talentos.html
ISSN 1519-2415
Edição Especial 2004
Publicado
originalmente na
Edição 7 – Janeiro 2003