Revista Tesseract
ISSN 1519-2415
Zoe de Camaris (Monica Berger)
O que é Arte Pagã Contemporânea? - Toda Arte
Contemporânea é pagã; me respondeu um filósofo, surpreendido com a pergunta.
Afinal, vinculações religiosas não são mais uma necessidade para a arte, e faz
tempo. Natural que a resposta fosse essa, em um primeiro momento, pois a
palavra ‘pagão’ passou a se assemelhar à palavra ‘ateu’, aquele que não
acredita em Deus e/ou não faz votos de comprometimento religioso, ganhando o
significado daquele que 'não é cristão' ou que não recebeu o batismo. Assim a
palavra tem sido compreendida no mundo judaico cristão, mas se retrocedermos um
pouco e atentarmos para a etimologia, veremos que paganus significa “do campo” ou ainda “morador do campo”. E também
tem o significado extra de "civil", ou seja, pessoa que não mantém
relações com o militarismo[1],
o que nos faz lembrar da natural postura anárquica do pagão (no sentido
político que é dado à palavra 'anarquia', é claro).
Obviamente, usamos o sentido original da palavra
"pagão", deixando de lado seu significado corrompido. E acrescentamos
ainda outros significados no seu bojo, já que uma postura pagã frente à vida
vem tomando concretude, não se restringindo mais nem mesmo à etimologia
original acima dada e invadindo o campo das realizações e reflexões humanas em
diversas áreas de atuação. Deixando-se de lado a apropriação da palavra
“paganismo” feita pela Igreja, descortina-se um imenso leque de possibilidades.
No entanto, a excessiva proficuidade do termo é também um fator complicante,
porque, afinal, o que seria Arte Pagã Contemporânea? Um olhar pagão sobre o
mundo? Caracterizaria-se pela escolha dos suportes? Pelo que é representado? Um
determinado estilo? Uma arte engajada? Uma arte interdisciplinar? Definiria-se
pela decifração de um determinado Imaginário?
Cumpre primeiro procurar definir o que é
paganismo na contemporaneidade e observar como a Arte vai se apropriando disso.
Se a alma pagã é a mesma através dos tempos, a
sua materialização se insere em outra leitura de mundo; estamos no século XXI.
O pagão é um panteísta - os deuses são a natureza do mundo - e, antes de tudo,
um animista - as coisas naturais são todas animadas, tem vida. O pensamento
pagão é mágico, por excelência. Os deuses pulsam em nós e ao nosso redor. O
prazer é lícito, a fruição necessária. Sensualistas e sinestésicos, o poder do
pagão é o exercício pleno da sua vontade. Comprometido com a Natureza, assim
como preserva a sua vida, encara o mundo como uma grande rede que a tudo
permeia e no qual as suas ações fazem toda a diferença.
A Arte Pagã Contemporânea absorve as
tecnologias, os avanços e aprecia a evolução dos tempos. Mas guarda a essência
pagã, que existe há milênios. Para ser
mais exata, a alma pagã, o paganismo como filosofia de vida, é EXtemporâneo,
assim como a Natureza é transtemporal, perene em sua magnitude, embora em
constante mutação - a única coisa que não muda é a mudança, é bom lembrar. A
Natureza é intranscendível pela
técnica. O Paganismo escapa às particularidades do mundo presente exatamente porque
não se localiza em lugar algum do tempo; o que a alma pagã tem de mais
peculiar, é de todos os tempos. A palavra "Contemporâneo" neste
contexto apenas indica o uso de materiais dos tempos atuais, assim como antes
foram usados os materiais do passado: o mármore das esculturas gregas e os
pigmentos da pintura rupestre.
Podemos pensar no que nos diz o filósofo
Schweppenhäuser [2], ao se
reportar ao distanciamento humano em relação à Natureza:
“O distanciamento da natureza através da moderna
racionalidade é o meio de sua dominação, que, entretanto, não produz liberdade,
mas sim o retorno violento da natureza esquecida, reprimida. Assim, a dominação
da natureza torna-se irmã gêmea da sua decadência”.
Absorvemos a tecnologia porque não encaramos a
racionalidade como algo separado do corpo, contrariando o ponto de partida
dualista do filósofo. E porque os instrumentos são prolongamentos dos nossos
gestos. O difícil é a justa medida, saber temperar as necessidades da Terra com
a sede pelo domínio tecnológico que, não raro, ultrapassa as fronteiras do
permissível. Dominando a Terra e o Corpo, considerados aprisionamentos do
Homem, a Alma e o Espírito se soltariam, para cumprir a sua verdadeira Missão:
a de uma racionalidade canhestra, ou de uma religiosidade tapada. Este é
império das Religiões, dos inúmeros re-ligares que observamos em ação e dos
excessos cometidos em nome da Ciência.
O retorno da Natureza esquecida, vilipendiada, é sempre violento,
principalmente no âmago, no inconsciente do ser humano. Dominar a natureza é
causar o seu estrago e nesse sentido, apesar do didatismo de uma separação
entre a realidade e a natureza, é impossível não concordar com Schweppenhäuser.
É uma
das funções críticas da Arte refletir sobre essa questão. Eduard Kac, por exemplo,
ao trabalhar com a Arte Biotelemática e a Arte Transgênica, questiona a
apropriação do uso da genética em Arte e levanta questões de cunho ético e
social [3]
que dizem respeito à apropriação excessiva da Natureza pela tecnologia.
O Paganismo Contemporâneo busca repensar o que
ainda se costuma ver como dicotomia: corpo e espírito estão juntos e não
separados. Ainda dentro de uma lógica e filosofia marxista, cantou a bola o
visionário Oswald de Andrade [4]
: a vida primitiva integrada na civilização, criando a sua síntese. A vida
primitiva de que fala Oswald é, ao meu ver, essa alma pagã de séculos.
Existe uma correlação, uma cooperação entre o
homem e máquina, que pode ser traduzido em gesto, em Linguagem, em Arte. Então,
temos incluídas no paganismo contemporâneo também as propostas de uma arte da
cibercultura, uma percepção física de um modelo teórico e a compreensão formal
das sensações físicas [5].
Os deuses não negam a máquina, os avanços, as
possibilidades inúmeras da criação humana. Não é mais possível ressentir-se com
que está feito, somos agentes do mundo presente e nos cabe a tarefa de
preservar a Terra com inteligência, respeitando e fluindo nos seus ritmos
diversos. E procurando coibir abusos contra a Natureza, que também é a nossa
Natureza Humana. E a melhor crítica sempre foi, através de todos os tempos, a
Arte.
O Paganismo Contemporâneo nesse sentido faz uso
do que é essencialmente anárquico, no melhor sentido do termo: auto gestão e
responsabilidade.
Buscando responder as questões levantadas no início
deste artigo, podemos dizer que incluem-se no Paganismo Contemporâneo a EcoArt,
a LandArt, a pintura matérica. O uso de materiais naturais, recicláveis e
reciclados; nas Artes Plásticas, a paisagem como suporte para intervenções. Na
música, os ritmos tribais, a boa World Music, as temáticas autócnes, as danças
sagradas, os mantras pessoais. Na literatura, a poesia de fôlego, intensa,
muitas vezes desencanada, de sentido libertário - mas concebida com rigor - e
identificada com as aspirações do seu tempo. A Arte Pagã Contemporânea se
associa aos mitos & ritos e está imbuída de Magia, sua Mãe, a temática
primitivista.
Seria então toda Arte Contemporânea, pagã?
Talvez seja muito cedo para definir, muito cedo
para vislumbrar ou tentar cercear o que seja uma expressão que encerra três
palavras tão abrangentes e complexas. Existe ou não a Arte Pagã no Brasil,
hoje?
Muita teoria ... sejamos mais empíricos.
Exemplos, por favor.
Em Cy,
Zoe de Camaris (Monica Berger)
[1] Aproveitando o ensejo, gostaria de dizer que esse artigo
não seria possível sem a interlocução com meus parceiros da lista A Fonte de
Hécate. Grata principalmente a Zé Rodrix e Angelita Scárdua pelos insights e
amigável discussão.
[2] SCHWEPPENHÄUSER, Gerhard. O Belo natural considerado uma instituição moral? Reflexões
sobre o problema do antropocentrismo na estética da natureza. In: DUARTE, Rodrigo. FIGUEIREDO, Virgínia
(org). As Luzes da Arte – homenagem aos
cinqüenta anos da publicação da dialética do esclarecimento. Belo
Horizonte: Opera Prima, 1999. P 113.
[3] Com sua obra
o "Uirapuru", Kac investiga a telepresença interativa personificada
pelo Uirapuru, um pássaro amazônico que, na mitologia pessoal do artista, é
transformado em um peixe voador e em seu Avatar. Os peixes telerobóticos podem
ser controlados por uma interface local e também pela Rede, fundindo realidade
virtual com telepresença na Internet.
[4] ANDRADE, Oswald. Do
pau-brasil à antropofagia e às utopias. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1978.